Vidas perfeitas
- André D'Angelo
- 12 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Quanto mais ambiciosos em nossas intenções biográficas, mais o dia a dia nos irá cobrar em atitudes, comportamentos e sacrifícios
“Ninguém jamais me verá regando plantas ou lavando o carro. Não costumo perder tempo com coisas que não me façam crescer”, teria dito o megainvestidor Warren Buffett. Bem, a vida de Hirayama, personagem principal de “Dias Perfeitos” (2023), de Wim Wenders, é exatamente o contrário: uma repetição de atividades banais que, no crivo de Buffett, não passariam de ociosidade. Entre elas, borrifar água em pequenos vasos de plantas todas as manhãs, ouvir música em fitas K7 a caminho do trabalho, tirar fotos analógicas e, de vez em quando, frequentar uma sauna ou comer alguma coisa num bar. O filme, que concorreu ao Oscar de produção estrangeira do ano passado e está disponível no Prime, causou uma pequena comoção em muitos dos seus espectadores por conferir beleza àquilo a que não se costuma dar valor, os pequenos rituais cotidianos. Ou, em uma expressão mais rebuscada, ao nosso “eu material”.
Em resumo: o “eu biográfico” é a dimensão da vida em que depositamos nossos objetivos mais elevados, as conquistas que pretendemos obter e a trajetória que gostaríamos de poder contar um dia. O “eu material” é o encarregado de executar as tarefas necessárias para cumprir essa idealização, tais como acordar cedo, estudar, trabalhar, educar filhos, fazer exercício físico e tudo o mais que se mostrar necessário para seguir o script. Quanto mais ambiciosos em nossas intenções biográficas, mais o dia a dia nos irá cobrar em atitudes, comportamentos e sacrifícios - e, frequentemente, suprimir em prazer.
Em “Dias Perfeitos” não há um eu biográfico explícito. O protagonista leva uma vida modesta higienizando banheiros públicos em Tóquio e morando numa pequena vila de subúrbio. Cultiva uma perceptível ética de trabalho – cumpre horários, é metódico e respeitoso com colegas e usuários – e um gosto genuíno pelos seus costumes: almoçar sentado num banco de praça admirando as árvores, ler livros comprados num sebo, dormir sobre um tatame. Desafia a ideia de que felicidade é um lugar que se visita, e não no qual se reside.
O oposto de Warren Buffett? Em termos. A despeito da riqueza amealhada, o empresário norte-americano é conhecido pelos hábitos frugais. Quem sabe o tal “crescimento” a que faça referência seja a vaidade de influenciar o mercado de capitais global, ter interlocução com líderes nacionais, ser reverenciado por seus pares, aparecer na mídia ou figurar no topo da lista dos filantropos mais cobiçados. Do restante que se conhece sobre sua rotina – ler, jogar cartas, comer McDonald’s e tomar Coca-Cola -, só a prática do golfe estaria fora do alcance do personagem japonês. No mais, igualar-se-iam em possibilidades. “A vida é mais deliciosa no que tem de mais íntima”, já dizia Henry David Thoreau (1817-1862).
O cinema é a arte mais afeita a representar eus biográficos em suas produções, sempre complexas, caras e demoradas. Contrariando essa tendência, Wim Wenders retratou, em “Dias Perfeitos”, um eu material – ou, em outras palavras, uma vida que talvez não valesse um filme, mas que certamente vale uma vida.
Artigo originalmente publicado na revista Sarau, de dezembro 2025.





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