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Por vias tortas

  • 10 de mar.
  • 5 min de leitura

O Caminho do Peabiru envolto em polêmica


Folheando a edição nº 30 de Francisca, de julho de 2022, descubro que Santa Catarina, Paraná e São Paulo se uniram para promover o Caminho do Peabiru, rota de 4 mil quilômetros que vai do litoral desses estados até o Peru e cuja origem remonta às civilizações indígenas que ocupavam a América do Sul. A intenção é transformar a parte brasileira deste percurso em um trecho de peregrinação, a exemplo do conhecido Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.


Tão logo os primeiros turistas começaram a percorrer o trajeto, contudo, surgiram contestações quanto a um aspecto específico da trilha. Ao contrário da divulgação oficial, Joinville e Garuva não fariam parte do caminho original utilizado pelos povos nativos, e obras atribuídas aos incas nessas localidades seriam, na verdade, construções dos tempos da Colônia ou do Império(1). Segundo estudiosos, as duas cidades, por meio de políticos e empresários, estariam interessadas em ser incluídas no itinerário às custas da boa-fé de viajantes incautos. A polêmica cresceu e chegou à imprensa internacional no último mês de janeiro, em matéria da BBC News Brasil(2).


Entendo a insurgência quanto às imprecisões (ou inverdades) históricas, e acho que é papel dos especialistas alertar a sociedade a esse respeito. Acredito, no entanto, que se trata de tarefa inglória - e o maior exemplo vem do primo famoso espanhol, bastante envolto em “tradições inventadas”. Sim, o Caminho de Santiago é, em boa medida, uma criação relativamente moderna.


Primeiro, porque ficou praticamente esquecido durante séculos, e só ganhou novo impulso com a divulgação do chamado “Guia do Peregrino”, uma compilação de manuscritos do século 12 encontrados na catedral de Compostela e publicado em 1938(3). Ou seja, na prática, o Caminho é uma “descoberta” recente.


Segundo, porque enquanto a cartografia antiga indicava a existência de algumas poucas rotas de devoção a São Tiago, todas pelos territórios da Espanha e da França, hoje se estimula a romaria a partir de qualquer país europeu que em algum ponto de sua geografia permita chegar à Compostela. O motivo? Uma combinação de interesses políticos, religiosos e econômicos que ajudaram a inflar a simbologia do Caminho a fim de fortalecer a identidade continental, fomentar a fé cristã e, claro, desfrutar dos benefícios econômicos desse discutível legado. Tem funcionado: se em 1970 a cidade-destino emitiu apenas 68 certificados de peregrinação, estes, hoje, somam centenas de milhares(4). A lenda venceu.


A ponto de estimular o surgimento de outras, aliás. O Santuário de Lourdes, no sudoeste da França, tenta recuperar seu prestígio com iniciativa parecida, e já há notícias sobre um certo “Caminho para Roma”, que vai da Inglaterra à capital da Itália, e os do “Norte de Gales” e “da Inglaterra”, que atraem andarilhos por vias do Reino Unido(5). Portugal, por sua vez, posicionou-se como um atalho para Compostela, permitindo uma economia de mais de dez dias na viagem rumo à capital da Galícia(6).


Neste furor, há espaço inclusive para parcerias transnacionais. O Caminho de Santo Antônio da Patrulha, no litoral do Rio Grande do Sul, é o único “reconhecido pelo Consulado da Espanha no Brasil como réplica”(7) do de Compostela - seja lá o que isso signifique. Já o de Porto Alegre, realizado anualmente da Catedral Metropolitana, no Centro, até uma igreja da zona sul da capital gaúcha, oferece um comprovante que pode ser acrescido àqueles emitidos na Europa para garantir o diploma oficial de peregrinação espanhol, concedido apenas a quem cobre ao menos 100 quilômetros até Santiago(8).


Qualquer semelhança com a mandala das grandes maratonas internacionais, formada pelas medalhas de participação em cada uma das seis corridas mais conhecidas do mundo, não é mera coincidência. Gamificar e premiar fazem parte de uma lógica maior, a de submissão paulatina ao turismo de massa - que, no caso de Compostela, já inclui serviços como carregamento de malas e mochilas(9), aluguel de bicicletas ou cavalos(10), restaurantes estrelados(11) e, claro, muito comércio, com as indefectíveis barraquinhas e lojas de suvenir(12).


O que tudo isso significa? Apenas que “as peregrinações atuais são apenas uma palavra diferente para sair de férias”, um rótulo “para atrair aqueles que querem caminhar”, como afirma a revista britânica The Observer. “Busco dentro de mim durante as seis horas diárias de caminhada, mas não encontro perguntas, nem tampouco respostas. Nem a mínima profundidade de pensamento ou espiritualidade”, reconheceu uma jornalista espanhola em relato sobre a viagem em sua terra natal(13). “Com a chegada do Instagram, as pessoas começaram a tirar selfies pelo trajeto, à caça de curtidas”, acrescenta uma escultora que percorre Santiago “à moda antiga”, na companhia de um burrico(14).


Inventar tradições, ensinava o historiador Eric Hobsbawm, não serve apenas a objetivos comerciais, como também a finalidades socioculturais. Permite legitimar hábitos de matriz remota e fornece a sensação de continuidade em relação a um passado comum pretensamente mais elevado em intenções e significados. A rigor, talvez a marcha a Santiago de Compostela e a destinos assemelhados nem constitua o que ele definia por tradição, e sim por um de seus componentes, os “costumes”, visto que sujeitos a mudanças e variações. “O ‘costume’ não pode se dar ao luxo de ser invariável, porque a vida não é assim”(15), escreveu o historiador. De fato: percorrer 800 quilômetros a pé por mais de trinta dias a fim de pagar penitências ou agradecer uma graça alcançada dificilmente faria sentido numa sociedade laica como a atual, só para ficar no caso espanhol.


Daí que acrescentar ramificações ao Peabiru possa ser uma falsificação histórica, mas não uma anomalia ritual: aos caminhantes, uma escadaria de pedras feita por indígenas originários ou portugueses e brasileiros dos séculos 16 ou 19 talvez represente o mesmo em matéria de pretexto - ou falta dele - para, simplesmente, viajar. É tudo turismo, afinal.


Ainda assim, certo comedimento viria a calhar. Joinville e Garuva podem perfeitamente ser tratados como desvios bem-vindos ao curso principal, com atrativos particulares pertencentes a outras épocas, quem sabe até didaticamente complementares aos da civilização evocada no Peabiru. “A verdade bem contada”, como gostava de definir o próprio trabalho a agência de publicidade McCann Erickson, ainda é um Norte preferível à invenção descarada.


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  1. Ver, por exemplo: SCHMIDLIN, Henrique. Caminho do Peabiru em SC: um turismo cheio de enganos. Página 3, 6 mai. 2022. | IELA. Incas no litoral de SC? “Um turismo enganoso”. IELA/UFSC, 11 mai. 2022. | IELA. Caminho do Peabiru duvidoso? Rede Trilhas é questionada por estudiosos indígenas. IELA/UFSC, 27 nov. 2024.

  2. ARAÚJO, Luiz Antônio. O caminho indígena ancestral cujo traçado original é alvo de disputas no Brasil. BBC News Brasil (online), 29 jan. 2026.

  3. CRAVIOTTO, Lola Parra. E a Europa criou Compostela...Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2018, p. 34-5.

  4. idem.

  5. STANFORD, Peter. Peregrinos seculares. The Observer/Carta Capital, 07 abr. 2021, p. 60-63.

  6. BEIRÃO, Nirlando. Compostela, ora pois! Caminho português é mais curto e aceita pausas. Carta Capital (online), 09 out. 2019.

  7. HARTMANN, Marcel. Uma trilha no Caminho Gaúcho de Santiago de Compostela, em Santo Antônio da Patrulha. Zero Hora (online), 01 fev. 2019.

  8. WEBER, Jéssica Rebeca. Mais de 900 pessoas participam de caminhada inspirada no Caminho de Compostela. Zero Hora (online), 24 abr. 2022.

  9. MINDER, Raphael. Elevando almas e a economia. The New York Times/Folha de S. Paulo (online), 09 set. 2014.

  10. CRAVIOTTO, Lola Parra. E a Europa criou Compostela...Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2018, p. 34-5.

  11. CAMPOS, Mari. Caminho de Santiago tem mais restaurantes estrelados no Michelin. O Estado de S. Paulo (online), 12 jun. 2022.

  12. MINDER, Raphael. Elevando almas e a economia. The New York Times/Folha de S. Paulo (online), 09 set. 2014.

  13. CARRANCO, Rebeca. Os antiperegrinos. El País (online), 29 set. 2019.

  14. CASEY, Nicholas. Conheça a dupla que percorre o Caminho de Santiago à moda antiga atrás de tradições esquecidas. The New York Times/O Globo (online), 12 nov. 2021.

  15. HOBSBAWM, Eric. Introdução: a invenção das tradições. In: HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz & Terra, p. 10.


Artigo originalmente publicado na revista Francisca, edição de março de 2026.




 
 
 

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