Um copo meio vazio de cuba libre
- 26 de jan. de 2015
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Atualizado: 15 de jul. de 2023
Reatados com os EUA, habitantes da ilha de Fidel temem pelo aumento da criminalidade. Faz sentido?
Semanas depois da retomada das negociações comerciais entre EUA e Cuba, O Estado de S. Paulo publicou interessante matéria a respeito das principais preocupações dos cubanos quanto ao futuro do país no novo cenário. A principal? Aumento da criminalidade (leia aqui)
Parece piada que diante da promessa de uma inédita evolução material venha à mente dos habitantes da ilha um temor dessa ordem. Mas, olhando com atenção alguns dados, vê-se que a desconfiança não é sem razão.
O capitalismo, inevitavelmente, acarreta desigualdades à população. E quanto maiores essas desigualdades, pior para toda a sociedade. É o que revela matéria da Harvard Magazine, baseada em diversos estudos sobre o tema (http://harvardmagazine.com/2008/07/unequal-america-html). Disparidades de renda, escolaridade e/ou saúde estão correlacionadas (e possivelmente até sejam a causa) com menor participação política, bem-estar subjetivo inferior, saúde física e mental piores e, sim, maiores taxas de criminalidade.
Se ao capitalismo segue-se a desigualdade e esta leva à criminalidade, pode-se afirmar que os temores cubanos têm fundamento?
Não necessariamente. Primeiro, a tradição socialista do país provavelmente ofereceu condições de educação e saúde igualitárias para a população, de maneira que as disparidades de origem tendem a ser menores do que aquelas encontradas em países historicamente capitalistas. Dessa maneira, mesmo que alguma diferença se observe na primeira geração que crescer sob o novo regime, ela não necessariamente irá perdurar por décadas. Tenderá a prevalecer, acredito, a perspectiva concreta de ascensão social, ao contrário do que costuma ocorrer naquelas economias de mercado nas quais as assimetrias de oportunidades acabam petrificadas ao longo do tempo.
Segundo: a ética da solidariedade e do coletivismo forjada sob o regime castrista também não deverá sumir de uma hora para outra, de modo que a própria relação da sociedade com as diferenças poderá ser alvo de atenuantes. Orientais e escandinavos estão aí para comprovar a viabilidade de um capitalismo menos individualista e mais subjugado aos espíritos de grupo e de nação.
Por fim, a sociedade cubana é bastante homogênea do ponto de vista étnico, o que tende a ampliar o sentido de pertencimento e solidariedade – e, por conseguinte, o apoio a medidas de redistribuição de riqueza, caso elas se mostrem necessárias.
Não deixa de ser curioso, contudo, que o temor de certos males capitalistas supere a esperança de uma vida melhor entre os cubanos. Seria essa mais uma prova de que o ser humano enxerga tudo por um viés negativo, preferindo se preparar sempre para o pior?



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