Subo neste palco
- 19 de ago. de 2014
- 3 min de leitura
...e você está convidado a me aplaudir. É a “sociedade do espetáculo”
Certos conceitos nascidos no mundo acadêmico, sabe-se lá por quê, transbordam os muros das universidades e ganham as ruas, tornando-se populares. É o caso da expressão “sociedade do espetáculo”, cunhada pelo escritor francês Guy Debord na década de 1960 para designar uma época na qual a vida, por influência da TV , começava a ganhar ares de um grande teatro no qual os atores seriam as pessoas comuns.
Conceitos oriundos de intelectuais franceses merecem sempre ser vistos com cautela, pois costumam surgir menos de evidências empíricas do que de certo gosto pela retórica descompromissada. Mas, ao que tudo indica, este início de século vem dar completa razão a Debord.
Primeiro, foram os casamentos-show, em lugares inusitados e com a indefectível coreografia dos noivos na hora da festa. Depois, os aniversários infantis e as formaturas de colégio. Agora, uma tradição em queda no centro do país, a das festas de 15 anos, renasce embalada na mais pura lógica do espetáculo.
Segundo a Veja de 14/05, a festa de uma paulistana foi inspirada pela marca americana de lingeries Victoria’s Secret, com direito a roupão personalizado e passarela. Outra aniversariante adotou como tema a cidade de Nova York. Para tanto, acoplou luzes de LED ao próprio vestido e aos de algumas convidadas, emulando os neons da Broadway. O custo dessas celebrações tem superado o de casamentos, podendo chegar à casa de inacreditáveis R$ 300 mil.
Organizadores de festas entendem que, como muitas das meninas irão casar tarde ou sequer consumar o matrimônio, seus pais ficarão sem poder oferecer uma recepção à altura do amor que nutrem pela garota. As festas de arromba aos 15 anos seriam, então, uma forma de suprir essa “carência”. Não deixa de fazer sentido, mas a explicação mais consistente para esse fenômeno, assim como para as outras modalidades de comemorações mencionadas antes, tem sua semente nos escritos de Debord, a meu ver.
Vivemos uma época em que a notoriedade é o bem mais raro e perseguido. “Dinheiro muitos têm; fama, não”, dizem alguns. Por isso tantos se candidatam a reality shows de televisão. A chance de ganhar o grande prêmio, além de pequena, é secundária; só o fato de estar em rede nacional supre a vontade de “existir de fato” a ponto de ser apontado nas ruas, tirar fotos com “fãs” e cumprir “presença VIP” em eventos por alguns meses.
Festas-espetáculo seguem lógica parecida. Embora não sejam eventos de alcance nacional, permitem que o anfitrião realize a fantasia infantil de, por algumas horas, ser o centro obrigatório das atenções. Convidar alguém para uma festa desse tipo, mais do que deferência ou reconhecimento, constitui uma pequena armadilha: é o chamado para ser espectador do show do eu que cada aniversariante protagonizará a seu modo. Os convidados funcionam, na prática, como escadas para o ego do promotor da celebração.
Porém, são os “vícios privados” que movem a economia, não os bons sentimentos. Uma vez existam pessoas desejosas de comemorações grandiosas, existirão os promotores de eventos do tipo, capazes de movimentar uma cadeia inteira de fornecedores para transformar ego-trips em realidade. Não é lá muito edificante, mas é assim que a riqueza é distribuída: como o mercado não faz julgamentos morais, nunca haverá quem deixe de se prevalecer desses caprichos humanos.



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