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O medo do luxo

  • andredangelodomini
  • 7 de out. de 2008
  • 2 min de leitura

Na China, autoridades condenam a publicidade de bens supérfluos e ostentatórios: é a história se repetindo


Diz o ditado que “a história se repete”. Será? Ao menos para os produtos de luxo, parece que sim. Recentemente, o governo chinês proibiu a propaganda externa (cartazes, outdoors) de produtos e serviços que promovam um “estilo de vida luxuoso e aristocrático”. O comunicado oficial que anuncia a decisão não menciona, mas é evidente que a medida parte de um temor a respeito das crescentes diferenças sociais existentes no país. Ao mesmo tempo em que Louis Vuitton, Ferrari e outras marcas de luxo vêem na China seu próximo Eldorado, operários e camponeses penam para conseguir o mínimo para sobreviver.

Mas por que o ditado “a história se repete” é apropriado para esse fato?

Porque o discurso do governo chinês não é muito diferente daquele que diversas personalidades fizeram contra o luxo ao longo da História. Demonstrações de opulência e riqueza já na Antigüidade eram alvo da atenção e do comentário de pensadores como Aristóteles, Sócrates, Platão, Sêneca e Cícero. Para os grandes filósofos gregos e romanos, o luxo constituía uma ameaça ao equilíbrio social, pois emulava o desejo de enriquecimento – motor das tentativas de ocupação de territórios próximos e, por conseqüência, das guerras.

Mais tarde, de 200 a.C. até por volta do século 19, o luxo esteve restrito aos integrantes da corte. Leis editadas em toda a Europa proibiam burguesia e nobreza de utilizar determinadas roupas, jóias e louças, por exemplo, por entender que os melhores produtos deveriam ser uso exclusivo dos monarcas. Eram as chamadas “leis suntuárias”.

Visões moralistas como as dos filósofos da Antiguidade, ou defensoras de privilégios hereditários, como as das monarquias, persistiram ao longo de alguns séculos, mas acabaram derrotadas. E quem se encarregou de torná-las obtusas foi o capitalismo, que transformou o desejo pelo luxo não em uma questão moral, mas sim econômica: o desenvolvimento econômico só ocorre porque o ser humano quer ver seus desejos pessoais atendidos.

Princípio semelhante àquele que orienta a economia chinesa de hoje: os capitalistas locais não empreendem por qualquer outro motivo que não seja a ambição material.

No entanto, as advertências do governo chinês sobre os perigos do “estilo de vida luxuoso” refletem menos uma ingenuidade sobre as motivações humanas em uma economia de mercado do que uma compreensão política sobre o futuro do país: a continuidade da expansão econômica chinesa depende da exploração de um imenso exército de mão-de-obra barata que, até agora, viu-se privada de direitos fundamentais no que concerne a trabalho e condições de vida. O luxo, nessas circunstâncias, não pode mesmo ser visto apenas como prêmio à livre iniciativa, mas também, e principalmente, como o retrato acabado de uma desigualdade ilegítima avalizada pelo Estado.

Por isso, a preocupação das autoridades chinesas com o luxo é, a um só tempo, tão sincera quanto cínica: o cenário sócio-econômico que ora se observa no país foi montado pelo próprio Estado. Ao condenar os anúncios que emulem “o hedonismo e a ostentação” os governantes estão a tergiversar seu verdadeiro medo – o de que, para usar as palavras de Raymundo Faoro sobre o Brasil, anos atrás, “as frustrações de organizem”.

 
 
 

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