Lado B, lado A
- andredangelodomini
- 2 de fev. de 2015
- 2 min de leitura
Ou de outra forma: meus discos, meus livros, meu eu ideal
Em fins de 2014 foi lançado “Discoteca Básica” (Edições Ideal), obra na qual 100 personalidades listam seus 10 discos preferidos. Uma boa maneira de conhecer os famosos através de suas preferências musicais, certo?
Não exatamente. É mais correto afirmar que se trata de uma maneira de conhecer como tais personalidades gostariam de ser vistas, tendo como pretexto seu gosto musical.
Explico.
Listagens como essas, que envolvem preferências estéticas tornadas públicas, encaixam-se naquilo que se chama de “afirmações de identidade”. Ou seja, são manifestações pessoais através das quais procura-se forjar uma imagem ideal de si, destacando o que é socialmente mais valorizado e ocultando o que é menos abonatório. Assemelham-se aos adesivos nas traseiras de carros, às fotos no Facebook e aos abaixo-assinados aos quais se adere online: é o lado A de cada um.
Porém, somos todos também lado B, ainda que neguemos, escondamos ou mostremos só para os mais chegados. E quem quiser conhecer alguém de verdade precisa colocar ambos no bico da agulha.
Por isso, para ter uma ideia de verdade de como são essas personalidades consultadas pelo livro, o melhor mesmo seria visitá-los em casa e examinar suas estantes de CDs, o disco rígido de seus computadores ou seu playlist do iPod: neles, encontraríamos certamente “resíduos comportamentais” capazes de sintetizar a personalidade de cada um tão bem quanto suas afirmações de identidade.
O que são esses “resíduos comportamentais”? Pistas involuntárias deixadas pelo caminho e que revelam algo sobre nós: DVDs e livros nunca comentados, fotos antigas, histórico de sites visitados, opiniões emitidas em ambientes familiares ou sob efeito do álcool...
Fora a curiosidade, que importância isso pode vir a ter para quem trabalha com marketing? Ora, pesquisas de mercado convencionais são perfeitas para conhecer o lado A dos consumidores, pois costumam estar repletas de afirmações de identidade. Não que isso seja de todo mal; saber como o consumidor gostaria de ser visto pode ser relevante em determinados negócios. No entanto, se a intenção é ouvir os dois lados do vinil, não tem jeito: a investigação tem de ser mais demorada e trabalhosa.
Do contrário, o que se terá como resposta é um top 10 como o de um dos participantes da enquete do livro, que citou apenas discos de música erudita entre seus preferidos – e recebeu do resenhista da Folha de S. Paulo um admirado e ingênuo “gente fina é outra coisa”.





Comentários