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As duas faces da moeda

  • 17 de out. de 2011
  • 2 min de leitura

Consumidores são tão propensos a desvios éticos quanto empresas. A diferença está no poder de cada um.


Na mesma semana, diferentes revistas brasileiras apresentaram duas facetas da ética nos negócios.

A primeira foi a revista Época que, na edição de 27/10, mostrou uma matéria na qual comparava-se o resultado em testes de segurança de alguns modelos de carros vendidos no Brasil com suas versões comercializadas na Europa. Resultado: por aqui, o desempenho foi bastante inferior. Enquanto as versões européias de Meriva, Peugeot 207, Fox e Corolla obtinham 4 ou 5 estrelas de 5 possíveis, as brasileiras não passavam de 2.

Interessante foi o comentário da revista diante da resposta das montadoras de que seguem os padrões de segurança vigentes em lei:

"O papel da legislação como base para garantir a melhora na segurança dos carros é importante, mas merece ser visto com cautela. Nem todos os países europeus têm leis que especificam os padrões de segurança dos carros. É a pressão do consumidor que leva à adoção de dispositivos que reduzam os riscos de ferimentos e mortes. (...) Não é preciso que a lei brasileira mude, equiparando-se à europeia, para que o consumidor daqui tenha direito a mais segurança".

Eis uma polêmica clássica em se tratando de ética nos negócios: é certo comercializar produtos menos seguros em países em desenvolvimento, simplesmente porque a legislação permite ou a sociedade civil desses lugares não faz pressão por dispositivos mais seguros? Quesitos técnicos de segurança não deveriam ser universais, uma vez que protegem a vida humana, independentemente de cultura ou lei?

Mesma semana, passa-se à revista Veja. Estudo inglês indica que o Brasil é vice-campeão mundial em prejuízos causados por roubos de mercadorias em lojas. Por aqui, a gatunagem em pontos de venda chega, em média, a consumir 1,64% do faturamento dos varejistas - só perdendo para a Índia, na qual o índice chega a 2,72%. A explicação não é médica - não, a cleptomania não é maior aqui do que lá fora; é cultural, segundo a revista:

"O problema é a noção, enraizada na mentalidade nacional, de que as instituições devem servir aos seus propósitos pessoais, não para organizar a vida em sociedade ou prestar um serviço pago à população".

À primeira vista pode-se imaginar que o jogo termina empatado, com consumidores e empresas exibindo culpas equivalentes. Não é bem assim, pois se trata, no fundo, de um jogo desigual: as empresas detêm muito mais poder do que os consumidores. Lojas conseguem prevenir-se de roubos; clientes não conseguem dominar todas as especificidades de um produto. Por isso, transferem a responsabilidade desse tipo de julgamento para os órgãos públicos. O consumidor assume que, se um produto chegou ao mercado, é porque é confiável do ponto de vista da segurança.

No entanto, a lei e vigilância estatal não são suficientes, como bem mostra o caso dos automóveis. É necessário que a sociedade civil crie seus mecanismos de supervisão e pressão para que esse jogo se reequilibre. Assim como lojas têm alarmes e câmeras de vigilância, grupos organizados de consumidores têm de disponibilizar à sociedade dispositivos equivalentes, para garantir que os dois lados estejam em paridade de condições.

 
 
 

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© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

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