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A sedução pirata

  • 3 de mar. de 2015
  • 3 min de leitura

O que leva alguém a se interessar por falsificações de marcas conhecidas?

Um fotógrafo fez um divertido ensaio de moda valendo-se tão somente de falsificações de marcas de luxo. Gastou, ao todo, US$ 9 dólares com as mercadorias. Sua intenção foi “mostrar a crescente economia da falsificação da qual a China é referência”, dado que o editorial foi realizado numa cidade chinesa (veja aqui)

O episódio é uma oportunidade para tentar entender por que produtos falsificados exercem tamanha atração sobre uma parcela dos consumidores e, mais especificamente, sobre aqueles que teriam condições de pagar por mercadorias originais.

A falsificação de bens de luxo nasceu na França, no século 18, e foi um negócio relativamente pequeno até a década de 1980, quando a crescente atratividade das marcas de luxo e o despontar da China como pátria da mão-de-obra barata mudaram esse cenário.

Para que ocorra a falsificação, é necessário que algumas condições estejam presentes. Primeiro, a marca tem de ser conhecida e desejada. Existem diversas marcas de relógios mais sofisticadas que a Rolex, por exemplo, mas esta é uma das poucas a ter notoriedade suficiente a ponto de justificar investimentos para uma produção de falsificações em larga escala. A importância da marca reside no fato de que ela é o critério principal de escolha do consumidor, antes mesmo do produto em si. Assim, importa pouco o modelo de bolsa, desde que ele contenha o monograma da Louis Vuitton, para ficar no caso mais conhecido.

Segundo: o consumidor é cúmplice do falsificador. Não é alguém de boa-fé enganado por comerciantes inescrupulosos. Não. Preço, local de venda e o próprio produto constituem um conjunto de indicadores suficientes para dissuadir qualquer um da eventual ilusão de que esteja levando uma mercadoria original para casa. A graça em comprar falsificações está justamente em saber que se trata de uma transgressão que praticamente não encerra risco criminal, apenas social: o de ser desmascarado por amigos e conhecidos.

Há dois grandes perfis de consumidores de falsificações de luxo. Um, que pode ser chamado de “popular”, adquire em camelôs de ruas populares ou lojinhas de subúrbio. Trata-se de um consumidor que costuma fazer pouco da pretensa qualidade dos produtos originais, resumindo as diferenças às marcas: “bolsa é tudo igual”.

Já o consumidor “elitista” teria condições de adquirir produtos originais, mas nem sempre prefere (ou consegue) fazê-lo. Não raro ele tem produtos originais e falsos e os combina em seu visual – e se sente esperto por isso, pois “faz um grau” com os outros a um custo inferior. Como tem condições de avaliar a qualidade dos produtos, consegue julgar quais as melhores cópias. Por isso, prefere comprá-las de um “representante” que as traz do exterior, ou diretamente quando em viagem à Europa, EUA ou Ásia – para ele, aliás, falsificado comprado fora é “mais original”. Um comportamento bem sintetizado pela jogadora de vôlei Ana Paula, que fez um pequeno estoque de bolsas falsas quando esteve na Olimpíada de Pequim, em 2008. Disse ela à época: “Que são piratas, são. Mas você nunca vai ver pirataria tão bem-feita como a daqui".

Por mais moralista que possa parecer, convém ficar longe de produtos falsificados, sejam eles imitações de marcas de luxo, grifes esportivas ou produtos culturais, como CDs e DVDs. Produtos piratas ajudam a financiar o crime organizado e organizações terroristas, duas das pragas que ameaçam as liberdades que o Ocidente conquistou a duras penas nos últimos séculos – e que incluem nossas valorizadas liberdades de consumo, evidentemente.

Serviço: para um bom resumo em português sobre o comportamento de consumidores de falsificações de bens de luxo, seguem duas dicas de leitura, ambas da lavra da professora Suzane Strehlau, da FGV-SP: “Cumplicidade na falsificação de luxo. Meio & Mensagem, 12 mai. 2008, p. 46”; e “Valor para o cliente de artigos de luxo falsificados: entre o blefe e o prestígio”. Anais do Encontro de Marketing da Anpad, Rio de Janeiro, 2006.

 
 
 

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© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

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