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A profissão paralela

  • 28 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 14 de mai. de 2025

Não importa o que você faça, deve ser também um criador de conteúdo


Entre os anos 1980 e 1990, com o país à beira da hiperinflação, meu pai se queixava que o Brasil obrigava todo e qualquer cidadão a exercer duas profissões: a sua própria e a de economista. Aprender a levar o dinheiro até o fim do mês ou protegê-lo em aplicações de correção monetária diária não eram tarefas exclusivas de gestoras do lar ou financistas sofisticados – eram mandatórias para quem quisesse sobreviver naquele cenário caótico.


Da nossa época atual pode-se dizer algo semelhante. À formação devidamente registrada em diploma, conselho profissional ou sindicato, recomenda-se acrescentar outra: a de social media. De si ou da empresa em que trabalha, não importa. Publicar em Instagram, TikTok e LinkedIn tornou-se fundamental para vender a própria força de trabalho ou cumprir com os requisitos de manutenção no emprego.



Há um lado positivo. Profissionais liberais e/ou que atuam em ramos com acesso restrito à mídia tradicional, por exemplo, podem construir uma base de contatos e clientes a partir de uma ferramenta simples e barata, obtendo divulgação que, de outro modo, não conseguiriam (Como profissionais com presença digital estão mudando a dinâmica do mercado de trabalho | GZH). O talento em "produzir conteúdo" é que vai determinar o alcance e, em última análise, as chances de repercussão na web – o que é menos dispendioso e mais meritocrático do que a publicidade convencional, ao menos em tese.


Há, contudo, alguns poréns. O primeiro deles é que a capacidade de fazer ressoar uma publicação pode demandar certa apelação, seja por meio da exibição da vida pessoal, seja pela banalização de um tema ou a simples rendição ao formato ligeiro que as redes consagraram. Segundo: a maior parte dos trabalhadores despenderá o próprio tempo ao postar, o que implica sacrificar outras atividades – algumas das quais provavelmente mais relacionadas à profissão que exercem, como frequentar congressos, atualizar-se etc.


Existe, finalmente, um terceiro problema: o desgaste. As redes demandam frequência de publicação e intensa carga emocional para garantir alguma relevância, o que não se alcança sem um mínimo de esforço físico e psi ao produzir as postagens. Recentemente, uma cantora espanhola afastou-se dos palcos devido à exaustão com as exigências da autopromoção digital. Quantos não têm experimentado algo parecido?


Com o Plano Real, em 1994, brasileiros puderam, enfim, abandonar sua "carreira paralela" de economista – apenas para trocá-la, 30 anos depois, pela de criador de conteúdo sobre si mesmos.


Feliz 1º de maio.

 
 
 

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© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

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