O legado? Felicidade
- 12 de jan. de 2015
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O que de melhor a Copa deixou para os brasileiros
Em meados de dezembro, numa entrevista à Rádio Guaíba, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, foi questionado por um ouvinte a respeito do legado da Copa do Mundo para a cidade. O prefeito desculpou-se por não mencionar, de cabeça, números acerca do retorno financeiro oferecido pelo evento, preferindo destacar seu “legado intangível”: a exposição da cidade na imprensa internacional, a expressiva intenção de retorno dos turistas à capital gaúcha e as menções positivas dos visitantes quanto à acolhida dos porto-alegrenses.
Arrisco que, mesmo se o prefeito tivesse os tais números em mãos no momento da entrevista, o “legado intangível” permaneceria como o mais relevante dentre todos os oferecidos pela Copa. O motivo? Reiteradas pesquisas já mostraram que sediar grandes eventos esportivos não traz retorno econômico significativo, mas, em contrapartida, aumenta o bem-estar subjetivo da população logo após a sua realização – ou, em outras palavras, torna os moradores da cidade-sede mais felizes. Um efeito mais realçado nos meses seguintes à competição, mas que pode persistir por até quatro anos depois de seu final – sendo capaz de compensar, inclusive, a queda na felicidade observada nos anos anteriores à sua realização, segundo o livro “Soccernomics”, de Simon Kuper e Stefan Szymanski.
Não deixa de fazer sentido. Se lembrarmos dos bons jogos, da confraternização com os torcedores estrangeiros e da completa reversão de expectativa quanto à organização do evento, veremos que, mesmo na falta de pesquisa oficial a respeito, o que ficou da Copa no Brasil foi um sentimento bastante positivo. E, dada a tensão que antecedeu à realização do torneio por aqui, seria possível até afirmar que, sim, nosso bem-estar subjetivo andou meio em baixa naqueles anos pré-2014.
O interessante é que, embora seja de 2009 o livro que menciona as pesquisas cujos resultados se cumpriram quase como profecia entre os brasileiros, pouco se leu na imprensa local a esse respeito antes da Copa. Criticou-se o ritmo de realização das obras, desconfiou-se dos retornos financeiros do evento e auscultou-se a população de tempos em tempos para saber de seu apoio ao torneio. Da ciência que aferiu as consequências da realização de grandes competições esportivas, reduzidas linhas. Enquanto isso, um livro suficientemente conhecido que permitia imaginar com bastante exatidão o day after da Copa no país era solenemente ignorado.
Para mim, que tive apenas contato com a obra em fins do ano passado, foi quase como ler o futuro depois de vê-lo acontecer.



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