• André D'Angelo

Utilidades insuspeitas

O que Botox, Viagra e Aspirina têm em comum?


Sofrendo de enxaqueca? Já pensou em tratá-la com Botox?


Algum parente seu está dando os primeiros e preocupantes sinais de Alzheimer? Não se espante se ele passar a tomar Viagra em breve – por estrita recomendação médica, diga-se.


Não, este blog não virou um samba do crioulo doido da medicina. Apenas está mencionando duas aplicações pouco conhecidas – no caso do Viagra, em fase de descoberta – de remédios consagrados para outras finalidades. A toxina botulínica, surgida para rugas de expressão, pode ser usada para dores crônicas, transpiração excessiva e esclerose, entre outras moléstias. E o sildenafil, originalmente voltado a combater a impotência sexual, suspeita-se agora que possa ajudar a prevenir o Alzheimer (mais detalhes aqui e também aqui).


Nenhuma novidade em se tratando de fármacos. Talvez você já tenha escutado médicos recomendarem Aspirina para prevenir problemas do coração, ou pequenas doses de determinados antidepressivos para induzir o sono. Remédios nascem com uma finalidade e, com o tempo, descobrem-se outras, ampliando seu espectro de utilização e garantindo mais tempo de permanência no mercado.


E quando essas novas aplicações costumam ser descobertas?


Geralmente quando os medicamentos enfrentam a transição da maturidade para o declínio de seu ciclo de vida.


Sim, pois como quaisquer outros produtos, remédios têm trajetórias mercadológicas. Logo que são lançados, há um esforço em convencer médicos a prescrevê-los. Enquanto a utilização ganha impulso e o medicamento torna-se referência para determinada patologia, a preocupação do laboratório é garantir o abastecimento dos consumidores e recuperar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento.


Depois, com as vendas já estabilizadas, fabricante e institutos de pesquisa começam a testar ou a identificar, no dia a dia, novas utilizações. Uma vez comprovadas e devidamente autorizadas pelas agências de saúde, elas se somam às originais e garantem um fôlego novo ao ciclo de vida do fármaco.


Buscar essas novas aplicações, aliás, é uma das atribuições de gestores de marketing quando veem as vendas de um produto dar sinais de declínio, em qualquer mercado. Conseguir estender o ciclo de vida é um dos pilares da "estratégia lateral", segundo a qual "antes de investir numa nova aposta, os executivos devem explorar todas as possibilidades mais próximas e acessíveis", como revela esta matéria.


Bom para as empresas? Melhor ainda para os consumidores, especialmente quando o assunto é saúde. Aplicações derivadas encurtam o tempo de chegada de remédios ao mercado e permitem o atendimento das demandas da comunidade médica com mais velocidade e segurança.