Tiro no pé?

Ou: não incorra no "me mentality", professor


Segunda-feira passada, Dia Internacional da Mulher, a fabricante de armas e cartuchos Taurus lançou o "Strong Woman", um revólver calibre .38 destinado ao público feminino. Além do nome ("Mulher Forte", em português), o produto tinha como diferencial parte do seu corpo em cor-de-rosa, numa evidência visual de que fora desenvolvido especialmente para elas. Some-se a isso a foto de divulgação (acima), em que a arma é acompanhada por uma rosa vermelha e um batom e, voilá!, tudo parecia caricatamente pronto para constituir um verdadeiro tiro no pé mercadológico da companhia com sede no Rio Grande do Sul.


Tanto que, no dia seguinte pela manhã, não me furtei de comentar a novidade com meus alunos da PUCRS. Em uma turma majoritariamente simpatizante das pautas feministas e há pelo menos dois anos exposta à boa publicidade por seus docentes de criação, o lançamento taurino parecia favas contadas para escracho coletivo. Então, deitei falação sobre empresas surdas à opinião pública, impermeáveis às tendências comportamentais, apegadas a uma visão estereotipada de gênero etc. etc. etc.


Estava prestes a recomendar que assistissem a um vídeo da comediante americana Ellen DeGeneres debochando de uma Bic cor-de-rosa, também pretensamente desenvolvida para mulheres (veja aqui), quando um aluno pediu a palavra e disparou: "Será que a Taurus não fez o produto pensando nas mulheres apoiadoras do atual presidente da república que, além de serem favoráveis ao armamento da população, acreditam que 'menino veste azul e menina veste rosa'?".


Bingo. Ou melhor, bang, bang.


Sim, a velha e boa segmentação, que o professor aqui cansou de defender como um dos pilares do marketing, era agora evocada pelo estudante que, despido de preconceitos, via o óbvio: um provável e expressivo contingente de mulheres de viés conservador disposto a ter uma arma em casa, incentivada, inclusive, pelas recorrentes medidas favoráveis do governo federal – mulheres essas, por que não?, afeitas à estética cor-de-rosa-flor-batom que me parecia tão antiquada, quase folclórica.


Nem eu nem as mulheres próximas a mim éramos o público-alvo do produto, o que não me autorizava a taxá-lo de ruim, inadequado, impróprio, o que fosse – ou seja, de incorrer no abominável me mentality: achar a si mesmo como parâmetro para julgar todos os demais consumidores. Uma armadilha clássica na qual eu havia acabado de cair.


Olhando de fora, agora, parece tudo bastante razoável. A Taurus tem um target claro e desenvolveu um produto para ele – e, como bem mandam os manuais de marketing, que advertem as empresas a não querer ser tudo para todos, abstraiu-se de preocupações quanto aos que, fora do público-alvo, têm a dizer sobre ele. A palavra final cabe às "mulheres fortes" a quem o revólver se destina, e ponto.


E ao professor aqui só resta se penitenciar para que a arma do encasulamento mental não volte a disparar acidentalmente contra o próprio pé.