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Colecionadores, senhores de um minimundo


Se você está ansioso para colocar as mãos na novíssima cédula de R$ 200, saiba que não é o único. Outros tantos brasileiros querem o mesmo, mas provavelmente por motivos diferentes do seu: deixá-la bem guardada. A razão? São colecionadores (veja aqui e aqui também).


Colecionar é um ritual. E, ainda que desprovido de qualquer utilidade prática, o hobby pode oferecer benefícios a quem se dedica a ele: manter a mente ocupada e facilitar a socialização com outros aficionados. Nesse último caso, pode até haver um componente competitivo: quem tem a maior coleção? Quem tem os itens mais raros e desejados?

Na maior parte das vezes, as coleções surgem por acaso e tendem à superespecialização, como mostram os exemplos dos quebra-cabeças de raciocínio (para assinantes), das xícaras e canecas (idem) e das curiosas etiquetas de lojas. E, como também é perceptível nos exemplos acima, coleções operam um pequeno milagre: o de transformar itens banais em objeto de devoção.


Aliás, coleções funcionam como uma forma de legitimar compras de itens aparentemente comuns. E não raras vezes são precedidas de muito planejamento, pois a partir do momento em que a coleção cresce, as aquisições deixam de ser aleatórias ou impulsivas e passam a ser direcionadas.


Psicólogos dizem que as coleções ajudam a dar a alguns indivíduos um sentido de controle sobre a vida. É como se o pequeno universo formado por aqueles objetos tivesse um senhor capaz de lhes determinar o destino: onde cada indivíduo ficará no mostruário, quem se juntará àquela população, quem merece posição distinta na hierarquia colecionista. Um minimundo no qual o colecionador faz o papel de Deus.


Nada, portanto, o preocupa? Não é bem assim. Completar a coleção é ao mesmo tempo um objetivo e um temor, pois coleção completa é uma coleção terminada, morta, que praticamente dispensa o seu controlador.


E por falar em morte, o colecionador tem, sim, outro receio: o destino da coleção depois que ele se for. Será doada? Vendida? Acabará nas mãos de alguém que lhe dedicará a mesma devoção e importância?


É, ser o senhor de um minimundo tem lá seus dissabores.

© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

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