• André D'Angelo

Rei sem majestade

Uma loja de discos e o ciclo de vida dos produtos


Em 21 de novembro do ano passado, a coluna Almanaque Gaúcho, de Zero Hora, contou um pouco da história da King's Discos, uma das mais conhecidas lojas de LPs e CDs de Porto Alegre. Inaugurado em 1968, o estabelecimento fechou as portas em fins de 2011, atropelado pela música digital. Lembro que, à época do encerramento das atividades, uma matéria do mesmo jornal registrou que o proprietário relutara em fechar a loja, a ponto de vender dois imóveis particulares para injetar recursos no combalido ponto de venda.


Espantoso, sem dúvida. Ao contrário de alguns negócios, pegos de surpresa por transformações repentinas, a substituição das mídias físicas pelas digitais vinha se anunciando desde o início dos anos 2000 – tempo suficiente, portanto, para adaptar qualquer loja ao novo mundo ou simplesmente fechá-la ao primeiro sinal de prejuízo. A primeira medida garantiu sobrevida à rede Multisom, que aumentou a área de vendas de equipamentos de áudio, vídeo e telefonia. E, a segunda, provavelmente foi a saída da maior parte dos empreendimentos de menor porte, como a King's, mundo afora.


Trata-se de uma lei do ciclo de vida de produtos: quando uma tecnologia fica obsoleta, caso dos CDs no início dos anos 2000, está condenada a nichos de mercado – e estes dificilmente são capazes de sustentar custos fixos altos, como um ponto comercial em zona nobre. Hoje, o melhor lugar para vender CDs é a internet, como se sabe.


Na maior parte das vezes, empreendedores brasileiros não podem se queixar de mudanças inesperadas na trajetória de vendas de produtos, serviços ou tecnologias. Antes de qualquer novidade chegar por aqui, ela já se espalhou pelo primeiro mundo; basta observar o que ocorre na Europa e nos Estados Unidos para prevenir-se de sobressaltos. Assim, há anos as empresas de telefonia sabiam que a receita com ligações minguaria, sendo substituída por pacotes de dados, e as companhias de bebida já se preparam para um cenário no qual a cerveja convencional cederá parte de seu market share às artesanais, quando não a destilados e vinhos, graças ao aumento do poder de compra da população e a consequente sofisticação de seu paladar. Como disse o empresário Beto Sicupira, "o Brasil está permanentemente de cinco a dez anos atrás dos países mais avançados. E isso é uma vantagem colossal, porque você pode aprender" (Valor Econômico, 28/08/20). Verdade.


No fundo, o caso da King's Discos ilustra quão específicas – e por que não, limitadas – podem ser as habilidades que alçam um empreendedor ao sucesso. O dono da King's soube surfar a onda da música gravada durante mais de trinta anos, mas foi incapaz de compreender sua desmaterialização. Não que devesse ingressar no mercado de música digital, claro, mas poderia perfeitamente ter revisto o mix de produtos da sua loja ou apenas reconhecido que a mídia física ficara para trás.


Por mais que se exalte a paixão de certos empresários pelos seus negócios, dela não raro decorre uma consequência perigosa, o apego. E, se como diz uma música de Paulinho da Viola, "não sou eu quem me navego, quem me navega é o mar", nos negócios acontece coisa semelhante: quem nos conduz é o mercado, quer queiramos ou não.