Quando o soft atrapalha o hard

"Indústria Americana" já teve suas versões brasileiras


Aproveitei a quarentena para assistir ao oscarizado documentário "Indústria Americana" (foto). O filme mostra as tensões decorrentes do choque entre duas éticas de trabalho: a chinesa e a americana. Um fabricante chinês de vidros automotivos reativa uma planta industrial nos Estados Unidos e contrata trabalhadores locais para atuarem sob a supervisão de orientais. Resultado? Uma dissonância cultural.


Eis o nome que recebem as diferenças de pensar e de agir de dois grupos obrigados a interagir. Essas diferenças podem ser decorrentes de culturas nacionais discrepantes, como no caso do documentário – e como já ocorreu no Brasil, só que com fabricantes coreanos, embora pouca gente saiba ou lembre. Mas também decorrem de culturas profissionais ou corporativas diferentes.


Exemplo do primeiro caso: anos atrás, fundos de investimento adquiriram algumas das principais marcas de vestuário brasileiras. A intenção declarada era, ao reuni-las sob um mesmo guarda-chuva, aplicar um choque de gestão e promover sinergias que as tornassem mais rentáveis juntas do que separadas. Adivinha o que ocorreu? Financistas e estilistas não se acertaram, claro, e os planos foram por água abaixo.


Exemplo do segundo caso, em que culturas corporativas não "batem": fusão entre Antárctica e Brahma. A primeira era uma cervejaria à moda antiga. A segunda, um banco disfarçado de empresa de bebida. Todo mundo sabe qual cultura predominou.


Sim, porque quando as diferenças são muito gritantes, só podem ser superadas por grandes adaptações de uma das partes – ou pelo uso da força. Chineses vetaram sindicatos nos Estados Unidos e a Brahma passou por cima da Antárctica na Ambev. Quando ninguém cede, como no caso dos banqueiros e dos modistas, há um impasse insolúvel.


Há quem diga que a gestão é uma combinação de skills e ferramentas hard, como finanças, contabilidade, tecnologia e processos, com outras mais soft, como marketing e recursos humanos. De maneira geral, aqueles que se saem melhor nas primeiras costumam ser mais cotados para administrar empresas, principalmente em tempos de crise. Normal. Mas volta e meia são as habilidades soft que decidem o destino de um empreendimento, como bem mostram "Indústria Americana" e tantas "indústrias brasileiras".

© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

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