• André D'Angelo

O Carrefour dos americanos

Por lá, é o Walmart o alvo de protestos


No Brasil, talvez nenhuma empresa tenha comprometido tanto a sua imagem nos últimos anos quanto o Carrefour – e se os motivos não estão claros para o leitor, não custa relembrá-los. Nos Estados Unidos, no entanto, o alvo da insatisfação popular também é um supermercado, mas atende pelo nome de Walmart.


Os motivos? Baixos salários, suposta discriminação contra minorias, pressão sobre fornecedores e consequências deletérias sobre o comércio de bairro, obrigado a acompanhar seus preços agressivos ou simplesmente fechar as portas.


Tanto que, quando o Walmart anuncia a intenção de instalar-se em uma cidade, comerciantes locais organizam-se para pressionar o poder público a fim de barrar a chegada do novo player. Não raro, contratam empresas especializadas em "pressão popular" para fazer manifestações em frente a câmaras de vereadores e prefeituras portando cartazes com a inscrição Walmart – not in my neighborhood ("Walmart – não no meu bairro", em tradução livre).


Daí que não tenha sido exatamente uma surpresa quando, em fins de 2020, uma estoquista tenha ido ao alto falante de uma loja do Walmart anunciar sua demissão – e acusar seus chefes e colegas das maiores barbaridades: "Atenção todos os clientes, funcionários e gerentes do Walmart: meu nome é Shana, do estoque, e eu só queria dizer que Henry é um canalha racista, Giovana é uma racista, Lia é uma gerente babaca. Essa empresa demite funcionários negros sem motivo. Essa empresa trata seus funcionários feito m..." (leia a matéria completa e assista ao vídeo aqui).


Se a empresa é tão malvista em seu país de origem, por que então não muda (ou somente o faz de maneira tímida, como recentemente)? A resposta parece estar na forte cultura organizacional, tão entronizada que a torna cega para o mundo lá fora. "O relativo isolamento do Walmart (...) e sua impenetrabilidade, na verdade, sua indiferença à opinião externa, são a expressão de um longo caminho explicando a lacuna entre como o público vê a empresa e como ela insiste em se ver", escreve Charles Fischman em Nos bastidores do Walmart (Saraiva, 2011, p.51). "A cultura do Walmart (...) não mudou nos últimos 20 anos, mas a realidade (...)" sim, conclui o autor.


Difícil fazer vaticínios sobre o que aguarda o Walmart na próxima esquina, mas dois ícones americanos já sucumbiram, recentemente, por não atentarem a mudanças no espírito do tempo: apegados a padrões estéticos hoje vistos como opressores, Abercrombie e Victoria's Secrets passam por maus bocados antes inimagináveis para duas gigantes do vestuário (aqui, para assinantes e aqui). Se a pressão pública foi capaz de afetá-las, por que então não funciona contra o Walmart? Qual, aliás, a melhor forma de protestar contra empresas que adotam práticas tidas como inaceitáveis? Tema para o próximo post.