• André D'Angelo

Coisas da imaginação

Especialistas não "previram" a pandemia, mas ficcionistas, sim


Se a sua empresa foi pega de surpresa pela pandemia, não se recrimine. Você não é necessariamente um mau gestor. Até mesmo os autoproclamados "especialistas" em prevenção de crises não a tinham em seu radar – ao menos o radar de 17 anos atrás.


Refiro-me a um paper da Harvard Business Review que tratava da preparação de empresas para eventos inesperados (completo, em inglês, aqui). Nele, os autores dividem os potenciais eventos em três: acidentes naturais; acidentes normais, como crises econômicas, desastres industriais e greves; e acidentes anormais, em que há má fé, como adulteração de produtos, disseminação de boatos e roubo de informações. O artigo confere mais ênfase justamente aos acidentes anormais, provavelmente influenciado pelo 11 de setembro, que acontecera menos de dois anos antes.


Curiosamente, os autores são econômicos ao exemplificar acidentes naturais, restringindo-os aos conhecidos terremotos, incêndios e enchentes. Em nenhum momento o artigo fala em crise sanitária – em pandemia, muito menos. A palavra "doença", por exemplo, aparece apenas para mencionar casos de sabotagem industrial.


Inevitável concluir que a imaginação é condicionada por aquilo que já se viveu. Assim como até 2001 ninguém cogitava um ataque terrorista das proporções do nine-eleven, quase ninguém falava publicamente da possibilidade de uma doença que se alastrasse pelo mundo e interrompesse a vida normal por mais de ano. Bill Gates foi um dos poucos a alertar para o perigo. Tanto que a técnica para prevenção que os autores diziam utilizar era de listar as crises possíveis e imaginá-las combinadas – como, por exemplo, uma greve associada a um ataque hacker. Mas sempre a partir de todos os eventos previamente conhecidos.


Imaginar eventos fora da caixa é impossível, então? Nem tanto. Quem trabalha com pesquisa de tendências, também chamada de coolhunting (saiba mais aqui), frequentemente impõe-se um exercício: imaginar um mundo em que determinado comportamento observado em pequena escala ou ainda não conhecido se disseminasse, tornando-se o padrão para todo o planeta. O que aconteceria? Quais seriam as consequências? Como a sociedade responderia?


Um exercício desse tipo facilita a identificação de uma tendência quando é incipiente, justamente por já tê-la imaginado extrema, dominante – e permite sair na frente nas medidas de adaptação.


Ou, se os gestores preferirem, há sempre a ficção como fonte de inspiração. Filmes como "Contágio" e "Ensaio sobre a cegueira" hoje parecem premonitórios. E enquanto a crise sanitária eclodia, uma escritora inglesa já tinha parte de um romance pronto sobre uma pandemia causada por pombos.


Errou por pouco.