Home Office forever?

15/06/2020

Adoraria responder que sim, mas tenho lá as minhas dúvidas

 

A viabilidade de trabalhar de casa pode ter sido, para muitas empresas e profissionais, a grande descoberta do confinamento. A ponto de algumas gigantes de tecnologia terem prorrogado o período de teletrabalho sem que nenhuma pressão externa fosse necessária, em um sinal evidente de que, mais do que prudente sanitariamente, o formato tem se mostrado produtivo (veja mais detalhes aqui também). Eis a senha para passarmos o restante de nossas vidas profissionais de calça de moletom e pantufas em casa? Não tenho tanta certeza.

 

Primeiro, porque nem todos contam com espaço adequado e condições para trabalhar remotamente. Sim, o escritório é cheio de interrupções, distrações e pequenas armadilhas que minam a produtividade. Mas a casa também pode sê-lo. Com crianças pequenas, por exemplo, o ambiente doméstico torna-se muito mais um ladrão de atenções do que um espaço profissional típico. Fora que quem vive em espaços muito pequenos ou não planejados para trabalho remoto também pode se sentir mais "em casa" na sua velha baia corporativa.

 

Segundo: reuniões por vídeo são muito práticas, mas também, muito cansativas – e às vezes, menos produtivas que as presenciais, como se tem percebido (saiba mais aqui e aqui também). Para aquelas decisões mais sérias, que demandam interações constantes entre profissionais, o formato presencial, com olho no olho e um telão projetando slides, ainda tende a ser menos desgastante e eficaz.

 

Um terceiro motivo deriva desse segundo. Parte do trabalho de muita gente pode não envolver necessariamente reuniões periódicas, mas, sim, diálogos, consultas ou troca de informação com colegas, com grande frequência, ao longo do dia. Em um cenário corporativo tradicional, as pessoas adaptam-se ao horário padrão, o que significa, na maior parte das vezes, olhar para o colega do lado ou mandar uma mensagem via computador e receber pronta resposta. Há uma sincronicidade entre a equipe que, quando liberada para estar cada membro em seu lar, pode ser perdida – fulaninho não responde à mensagem, pois foi atender a porta, tirar alguma coisa do forno ou simplesmente resolveu levar o cachorro para passear no meio da tarde.

 

Quarto. Muitas tarefas ainda exigem grande supervisão e controle. Ambos mais fáceis presencialmente do que remotamente.

 

Quinto. Muitos chefes, mesmo sem razão nenhuma aparente, entendem seu trabalho como essencialmente supervisão e controle – ambos mais fáceis presencialmente. E chefe, como se sabe, manda.

Sexto: negócios que dependem do trabalho intelectual e criativo sabem que é a junção de pessoas que os viabiliza, e não o afastamento.

 

Sétimo: para empresas novatas, por mais contraditório que possa parecer, uma sede é duplamente importante. Primeiramente, para atrair investidores, clientes e parceiros. Embora pareçam descoladas, " (...) as empresas de tecnologia (...) pagam caro por escritórios físicos em pontos bem específicos do mapa. (...) 'Se você disser a um investidor: "Estou levantando dinheiro para uma startup e minha equipe trabalha a distância (...), ele não vai olhá-lo com bons olhos'", afirmou um empresário do ramo (Valor Econômico, 11/05/2017). Segundo: como bem disse um executivo recentemente, "a cultura da empresa se materializa no escritório" (mais aqui). Embora o autor da frase pareça suspeito, por atuar no ramo de imóveis corporativos, a afirmação tem fundamento. Tanto o home office quanto as jornadas mais flexíveis devem ter sua compatibilidade avaliadas sob a luz da cultura organizacional – e quando uma organização precisa forjar uma cultura, é preferível, sim, que estejam todos no mesmo espaço.

 

A quantidade de senões e impeditivos ao teletrabalho pode parecer imensa, mas não é. Afinal, não é nada trivial romper com quase um século e meio da tradição de enfurnar dezenas ou centenas de pessoas em prédios corporativos. Além disso, home office combina com jornadas mais flexíveis, e, novamente, romper com o paradigma do "horário comercial" também não é fácil. O confinamento forçado pela pandemia foi só o primeiro passo.

 

Ademais, as regras atuais para retorno aos escritórios têm sido tão insuportavelmente severas que não é de surpreender que fiquemos mais uns seis meses no formato a distância – ou seja, ainda há o que aproveitar.

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© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

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