O passado é pop

18/05/2020

Todo mundo está revendo o que já foi visto. Por quê?

De repente, não mais que de repente, a pandemia obrigou emissoras de rádio e televisão a fuçarem seus arquivos em busca de conteúdo que substituísse as atrações originalmente programadas, fossem elas jogos, novelas ou programas de auditório. E a iniciativa, veja só, tem dado certo.

 

"Fina Estampa", uma novela de sete anos atrás, não mais do que razoável e de sucesso moderado a seu tempo, marca mais pontos no Ibope que a atual "Amor de mãe". Os jogos da seleção brasileira nas tardes de domingo da Globo repercutem nas redes sociais (veja aqui e também aqui), assim como as corridas de F-1, e até enlatados japoneses conseguem audiência superior à de programas regulares. O que nos leva a perguntar: por que o passado é pop?

 

Existem dois públicos consumidores de produtos como esses. O primeiro é o de saudosistas e nostálgicos. Ou seja, aqueles que viveram a época dos acontecimentos reprisados e gostam de recordá-los. Alguém já disse que não existe lugar mais confortável e seguro que o passado, o que parece perfeito para uma época como a atual, de tensão e incertezas. Uma novela de fim previsível? Um jogo de placar conhecido? Manda ver!

 

O outro é formado por quem não pôde acompanhar essas produções ou partidas à época, por não ter nascido ou ser muito jovem. São pessoas que saciam a curiosidade de ver ou ouvir aquilo que conhecem apenas por relatos de terceiros ou por fragmentos da própria memória. Caso comecem a cultuar esse passado que não viveram, seja no vestuário, em objetos do dia a dia ou em manifestações culturais, passam a constituir um fenômeno chamado "retrô".

 

Saudosistas e retrôs são dois nichos de mercado interessantes. Os primeiros ajudaram a fomentar eventos como as célebres festas anos 1980 e 1990. Os segundos, linhas de produtos evocando designs sessentistas.

 

Há quem atribua a proliferação de produtos e eventos como esses à dificuldade que a própria indústria se impôs ao acelerar o ritmo de criação de novidades. Chega um momento que não há inventividade que dê conta, e o negócio é buscar no passado a inspiração do que vai ser colocado no mercado – quando não a reedição pura e simples do que já fez sucesso.

 

O interessante sobre as atrações citadas no segundo parágrafo é que ambos, nostálgicos e retrôs, têm um canal muito mais abundante de conteúdo passadista do que qualquer emissora de rádio ou tevê, que é a internet. Boa parte do que tem sido veiculado com sucesso é perfeitamente encontrável no YouTube, por exemplo. Sua audiência e repercussão em TV aberta é um sinal da força e da penetração desse veículo no país, e de sua capacidade de pautar as atualíssimas redes sociais.

 

E agora, por favor, me deem licença – Grêmio e Peñarol vai começar, e eu adoro jogos com vitórias do meu time asseguradas. 

 

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