CEO, sigla para “CElebridades On-line”

03/02/2020

Executivos usam as redes sociais para se promover

 

Anos atrás, Abílio Diniz (foto), então presidente do Grupo Pão de Açúcar, foi capa da VEJA. A revista destacava que, além de comandar um importante conglomerado empresarial, Diniz ainda arrumava tempo de malhar duas horas por dia, ou coisa assim. Sugeria, com isso, que ele poderia ser considerado um sujeito de sucesso “tanto no pessoal quanto no profissional”, como diria um apresentador.

 

Diniz, naquele momento, tornara-se um exemplo típico do “CEO celebridade”, o sujeito que se torna conhecido do grande público e cujos pensamentos e ações despertam interesse para além do círculo empresarial. Uma figura que se tornou comum desde que o mundo dos negócios se tornou mais midiático, conferindo destaque a determinados personagens, seus feitos pretensamente grandiosos e suas receitas de sucesso. Um casamento perfeito entre a chamada indústria do espetáculo e a vaidade de executivos, que viram no culto à própria figura uma forma de turbinar ganhos como CEOs, conselheiros, autores de livro e palestrantes. Creio que Lee Iacocca foi um dos pioneiros desse movimento, e Jack Welch, seu expoente mais ilustre. 


Agora, ao que tudo indica, essa tendência está chegando a um novo patamar com as redes sociais. A mesma VEJA, em edição recente (11/12/2019), destaca que o presidente da farmacêutica Cimed tem 150 mil seguidores no Instagram, para os quais faz lives frequentes, falando da rotina empresarial. Outros recém-convertidos ao mundo virtual são o CEO da Arezzo e a da Lacoste Brasil, que “compartilham aprendizados” e “inspiram pelo exemplo” on-line, segundo os próprios. Além disso, como “não é só de trabalho que se alimenta uma audiência”, nas palavras da revista, “ganha mesmo muitos seguidores quem expõe sua vida particular”, o que inclui postagens de momentos em família, praticando esportes e ao lado de famosos em eventos. 

 

Vejo três senões nessa postura. O primeiro, da distração. Se a falta de foco é um dos males da nossa época, frequentemente apontada como uma sugadora da produtividade de estudantes e trabalhadores de diversos níveis, não vejo motivo para considerá-la um problema menor quando se trata de um alto executivo. A vida empresarial já é repleta de atribuições para que seja acrescida de mais uma, a de postar na internet – que, obviamente, não ajuda em nada a dar conta das demais, certamente mais importantes.

 

Segundo: o uso das redes sociais favorece a exaltação do ego do executivo e, por consequência, a confusão entre pessoa e personagem – e o que é pior, entre o que é interesse individual e o que é interesse da organização. Quando o primeiro se sobrepõe ao segundo, sai perdendo a empresa, evidentemente.  Tempos atrás, um comentarista de futebol referiu-se a um jogador dado a brilharecos individuais inconsequentes como alguém que “sempre sai por cima, enquanto o time sai por baixo”. Fenômeno semelhante pode ocorrer nas empresas que contam com CEOs celebridades.

 

O terceiro, porém, é consequência direta do anterior: a vaidade é má conselheira ética. Quem vende a vida profissional ideal on-line tende a não querer admitir derrotas, reveses, impedimentos. E a consciência moral é justamente o território em que se opta pela perda em nome da segurança, da transparência e da honestidade, pois o princípio tem de ser maior que o resultado imediato.

 

Se para quem gosta de assuntos corporativos acompanhar o dia a dia desses profissionais pode saciar alguma curiosidade, para quem quer, de fato, um líder no qual se inspirar, o modelo tradicional ainda me parece o melhor: conviver com um, no dia a dia. É no cotidiano que se observa quão complicada – e pouco midiática – é a tarefa de gerir competentemente uma organização.

 

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