Made in...qualquer lugar

23/01/2020

A nacionalidade de um produto ainda faz diferença?

 

O representante da Xiaomi (foto) no Brasil acredita que o preconceito em relação a marcas chinesas está diminuindo. O responsável pela nova investida da fabricante de eletroeletrônicos no país atribui essa mudança à qualidade dos produtos, que agregaram tecnologia e passaram a agradar até consumidores mais exigentes. “Sempre tem alguém que entende de tecnologia, indica o produto e acaba espalhando isso”, disse ele. O executivo aproveitou para lembrar que “quando o Japão começou a trabalhar com produtos tecnológicos, eles eram de má qualidade e depois isso mudou”, ao destacar que processo semelhante está ocorrendo com os chineses (matéria completa aqui).

 

De fato, países acabam associados a alguns tipos de produtos, geralmente nos quais foram pioneiros e/ou atingiram patamar de excelência. Assim, no imaginário do consumidor, relógios suíços são os melhores, assim como vinhos franceses, chocolates belgas e eletrônicos japoneses, para citar só alguns exemplos. É o chamado “efeito país de origem” que tanto beneficia fabricantes em busca da internacionalização de seus negócios. Basta uma bandeirinha de determinadas nações na embalagem para que o atestado de qualidade esteja supostamente conferido – e a eventual desconfiança do potencial comprador, dissipada. 


Esse mesmo efeito exige, no entanto, que exportadores de mercadorias nas quais seus países não têm tradição valham-se de estratagemas para convencer mercados a experimentá-las. Basta lembrar da gaúcha Taurus tentando vender suas armas nos Estados Unidos, com a oferta de garantia vitalícia. Ou da chinesa JAC Motors, que se valeu de uma inédita garantia de seis anos para um de seus modelos quando entrou no Brasil, anos atrás. E dá para imaginar a dificuldade que passaram as primeiras equipes de vendas da Embraer, os primeiros importadores de carros coreanos e as primeiras vinícolas californianas em seus esforços de ganhar o mundo.

 

Em todos esses casos, as táticas para convencer importadores, revendedores e consumidores a assumir riscos costuma ser semelhante – preços baixos, promoções, endossos, garantias etc. Mas a permanência no mercado só se obtém, mesmo, com a efetiva qualidade do que se entrega. E como a indústria de um país evolui e melhora com o tempo, não é de duvidar, mesmo, que os celulares chineses estejam bons o bastante a ponto de rivalizar com os japoneses e norte-americanos – até porque são eles que manufaturam os aparelhos concebidos em tantos outros países, incluindo os líderes. Alguma coisa devem ter aprendido.

 

É curioso que o “efeito país de origem” mantenha importância, principalmente para os produtos de escala industrial. Hoje, por exemplo, iPhones são designed in California, assembled in China, e roupas da Zara têm pouco de espanholas, exceto a etiqueta. Na indústria do luxo, há casos em que o produto é fabricado no país em que é concebido, mas por mão de obra imigrante de baixo custo. Com o tempo, suspeito que consultar a nacionalidade de uma mercadoria parecerá mais vestígio de uma mentalidade pré-globalização do que um critério fundamentado para aferir a qualidade de um produto.  

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