Prezados acionistas: nos f*#@*#@

15/01/2020

E se os negócios abandonassem os eufemismos?

Todo fim de ano, o site gaúcho Coletiva.net, especializado na cobertura do mercado de comunicação, faz uma consulta a agências e veículos para um balanço do exercício que termina. Mesmo em meio a crises duras, como a atual, dificilmente os empresários dão o braço a torcer e revelam os apuros pelos quais passaram. Preferem, ao contrário, lançar mão de eufemismos como “ano desafiador” ou “de consolidação”, em que “mantivemos nossa carteira de clientes e nosso quadro de colaboradores”, ocultando os inúmeros perrengues enfrentados. Negócios vivem da aparência, sabemos bem.

 

Qual não foi minha surpresa, portanto, ao deparar com um relato sincerão de uma empresa gaúcha de mídia externa que definiu, sem papas na língua, 2019 como “o pior ano de nossa história” – o que não é pouca coisa, considerando que a companhia se aproxima do cinquentenário. O tom lamentoso, logo no título, foi complementado por frases pouco atenuantes no interior da matéria, como "a única conquista foi ter conseguido pagar as contas e sobreviver", segundo palavras do diretor – que provavelmente não viu nenhum sinal da tal reação econômica apregoada por certa mídia: "É preciso que a economia combalida deste nosso país se recupere", rogou. Ano novo, vida nova? Só se Ele intervir: "Esperamos que Deus nos ajude nesse momento tão conturbado", concluiu o dirigente (nota completa aqui).  


O caso me lembrou um “comunicado aos acionistas” que a Casseta Popular, revista satírica que deu origem ao Casseta & Planeta, da TV Globo, publicou lá por meados da década de 1980 em suas páginas. Dizia assim: 

 

“[E]sse ano não deu. Não deu mesmo. A gente tentou. Ah, isso a gente fez. Mas o ano foi brabo. As vendas subiram bastante, as dos nossos concorrentes. O mercado para o nosso produto nunca esteve tão bem. Só nós é que nos f*#@*#@”. 

 

O texto seguia:

 

“A Divisão de Vídeo poderia ter ido bem, não fosse o fato de ter ido muito mal. (...) [O] setor de Eventos Especiais, felizmente, não apresentou resultados negativos em 1986, talvez pelo fato de ter sido desativado em 1981”.

 

Alguma luz no fim do túnel? Só se fosse um trem na direção contrária, segundo a Casseta Popular, pois “a Divisão Editorial, que tivera prejuízos incalculáveis, provavelmente teria prejuízos calculáveis” no ano que se iniciava (Fiuza, Guilherme. Bussunda, a vida do casseta. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010).

 

Com a mesma sinceridade da empresa de outdoors gaúcha e dos cassetas da década de 1980, desejo que você e sua empresa tenham um 2020 que dispense eufemismos – e seja repleto de superlativos positivos.

 

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