As verdadeiras lições de Steve Jobs

08/11/2011

Não são o perfeccionismo, o gosto pelo design nem o enfrentamento do câncer

 

Terminei o post da semana passada, a respeito de Steve Jobs, dizendo que o fundador da Apple deixava alguns ensinamentos para os homens de negócio. Não exatamente aqueles pelos quais andava sendo saudado - a Apple passou a maior parte da sua história perdendo para rivais mercados que ela própria havia criado -, mas sim por outros. São eles:
 
1) A preocupação com o consumidor: Jobs gostava de tecnologia, mas não era engenheiro nem ‘informata’ – e esse foi seu diferencial. Por isso, sempre se preocupou com o usuário dos produtos que fabricava. Quando lançou o Apple 1, escreveu que o mercado de informática se caracterizava pela “falta de interesse técnico, matemático ou científico do usuário”. Acertou em cheio. Jobs sempre fez questão que os produtos da Apple fossem fáceis de usar, para não assustar o consumidor nem estragar sua experiência com o gadget. Sua obsessão em incluir a interface gráfica nos computadores da empresa, logo após a visita ao centro de pesquisas da Xerox, em 1979, é representativa desse espírito: clicar em ícones era muito mais fácil do que digitar comandos. O mesmo vale para a roda de rolagem do iPod. Apresentado para um sistema hipercomplicado de MP3 player concebido pelos engenheiros da empresa, foi a um quadro-branco e desenhou o retângulo com um círculo. E disse que esse seria o produto: um único botão faz-tudo, para tornar as coisas simples para quem usa. 
 
2) Destruição criativa: o iPod é o MP3 player mais vendido do mundo, mas está em franca decadência. Quem mais ajudou a matá-lo, por ironia, foi a própria Apple, com a criação do iPhone, um minicomputador de mão que faria as vezes de telefone, agenda, tocador de música e um monte de outras coisas. Jobs deu-se conta da convergência tecnológica e achou por bem liderar esse mercado -  mesmo que, no processo, seu campeão de vendas acabasse condenado. Pensasse desse modo, a Kodak não estaria passando pelos maus bocados de hoje. Ela criou a fotografia digital, mas não a lançou para não comprometer seu negócio de foto analógica. Resultado: os concorrentes o fizeram. Em setores de rápido avanço tecnológico, o melhor a fazer é concorrer consigo mesmo, nem que para isso seja necessário tornar obsoleto aquilo que se criou.
 
3) Marketing é tudo: não basta um produto bom; há que se saber promovê-lo, também. Era o que Jobs fazia nas apresentações anuais das novidades da Apple. O cuidado com que exibia o produto, investindo no mis en scéne e, com isso, ganhando farta cobertura da imprensa, é uma lição para aqueles que acham que vão vencer simplesmente porque seu produto é melhor – caso do Google, conforme comentei num post algumas semanas atrás. 
 
4) É preciso haver um propósito: quando voltou à Apple, em 1997, Jobs reuniu sua equipe e disse que a empresa precisava recuperar o espírito que a permeava em meados dos anos 70 e 80: o de desenvolver grandes produtos. Foi a senha para motivar novamente seu time de engenheiros e designers, há muito se sentindo oprimidos por CEOs financistas. Ter lucro é necessário para a sobrevivência de uma companhia, mas não é suficiente para motivar um time – e nem mesmo fazê-lo trabalhar bem. Que o diga a GM que, sob o comando de financistas, viu seu propósito se perder, como conta Bob Lutz, ex-executivo da montadora, em “Car guys vs. bean counters”. A importância de um propósito é referendada pelo economista inglês John Kay, que afirma que “as empresas que mais dão lucro são as menos orientadas para o lucro” – e sim aquelas orientadas para atender bem seus clientes e fazer bons produtos. O autor Daniel Pink lembra que engajamento – ou seja, perceber um sentido maior naquilo que se faz – é fundamental para motivar as pessoas, especialmente em projetos grandes, longos e complexos, como a criação de produtos de tecnologia.  
Resumindo: a despeito das ressalvas que fiz no post anterior, há de se convir que, numa trajetória de pouco mais de 35 anos como CEO, não são poucas as lições deixadas por Jobs.

 

 

 

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