Para quê? Para quê?

22/06/2015

 

Há quem pilote o carro da própria carreira sob velocidade controlada, sem enfiar o pé no acelerador

 

Boas oportunidades de trabalho são como cavalos que passam encilhados: devem ser montados sem titubeios. Certo? Não para o ator argentino Ricardo Darín, que recusou o papel em uma produção norte-americana em nome de suas convicções (não viver um estereotipado traficante latino-americano no cinema), prioridades (voltar a conviver com a família, depois de uma temporada de trabalho no exterior) e até mesmo da consciência de suas limitações (a dificuldade de performar bem em um idioma estrangeiro). As razões de Darín estão expostas em uma entrevista dada há quase dois anos e que vem circulando nas redes sociais (assista a um trecho legendado aqui).

 

O que se passou com o ator argentino enquadra-se naqueles poucos episódios da vida que dizem mais sobre nós mesmos do que longas descrições. Não se trata de caráter – aceitar filmar em Holywood não torna alguém melhor ou pior –, e sim de valores – o que cada um preza para si. E há uma parcela de pessoas que, tal qual Darín, opta por recusar oportunidades pelas quais outros tantos dariam a vida. Há também quem escolha não desfrutar de todas as benesses que o dinheiro proporciona, ou mesmo os que não se vêem atraídos pela maneira como a maioria vive – sempre em busca de “mais e melhor” – e optam por manter em baixa velocidade o carro da própria carreira profissional, que poderiam acelerar até acima dos limites permitidos.

 

Exemplos para além do de Darín? Vários, e todos brasileiros:


Um executivo que renuncia a possibilidades de ascensão profissional em nome de uma rotina mais relaxada, ao lado dos filhos que vivem no exterior.


Um funcionário público que vende o que tem e se torna monge (e a bancária que deixa uma casa num condomínio e passa a viver em uma barraca no meio do mato).


Um empresário milionário que mora de aluguel, dirige um carro popular e doa tudo o que tem para a Igreja.


Estes e muitos outros personagens foram entrevistados por mim para compor “Por uma vida mais simples – histórias, personagens e trajetória da Simplicidade Voluntária no Brasil”, livro editado pela Cultrix que chega agora às livrarias. Todos, inevitavelmente, vieram à minha mente quando vi a tal entrevista de Darín, especialmente no momento em que o entrevistador espanta-se diante do episódio narrado pelo ator, e insiste no tema holywoodiano:

 

- Já imaginou a grana que poderia ter ganho?
Ao que Darín responde com convicção:
- E...? E...? Para que serve? Para quê?.
- Para viver melhor...
- Melhor do que eu vivo? Eu posso tomar dois banhos quentes por dia!

 


 

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