O que se perde

31/08/2015

Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

 

Existe um ditado nas empresas controladas pelo fundo de investimentos brasileiro 3G e que costuma ser repetido na cervejaria AB InBev: “custos são como unhas, tem de cortar toda a semana”. Foi assim que o grupo adquiriu cervejarias ao redor do mundo e se tornou uma das maiores potências do mercado de bebidas.


Só que cortar despesas, incrementar a produtividade e implementar a famosa política de meritocracia não constitui apenas um choque de gestão, como também um violento choque cultural. Foi o que ocorreu com os funcionários da cervejaria do grupo em Leuven, na Bélgica.

 

Segundo um relato do Valor Econômico, “os belgas gostam do salário que ganham na InBev, mas a nostalgia continua forte”. Conforme um operário entrevistado, “agora é sempre a mesma coisa: dinheiro, dinheiro, dinheiro, e tudo muito rápido. Aqui não há tempo para conversar e nunca se é rápido o suficiente”.


Ainda de acordo com a matéria, “os salários na InBev são os mais elevados do segmento na Bélgica. Apesar disso, não está entre as 10 multinacionais onde é bom trabalhar, conforme pesquisa anual no país. ‘Somos bem pagos na InBev, mas é muito estressante’, diz um funcionário. ‘Os brasileiros cortaram até os grupos de pesca, ciclismo, corrida, folclore, que eram fatores de motivação social’”. A matéria completa pode ser lida aqui.


Aparentemente, o choque provocado pela InBev na Bélgica equivale a uma transição do “trabalhar para viver” para o “viver para trabalhar”. O primeiro é um modelo tipicamente europeu; o segundo, norte-americano e asiático.

 

A InBev tornou-se um negócio mundialmente vencedor, sem dúvida, mas não sem traumas. Como dizia Rousseau, “a gente sempre sabe o que se ganha com o progresso. O problema é saber o que se perde”. Os belgas sabem.

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