Uma agenda para a sustentabilidade

11/08/2015

Três frentes de ação para “vender” a causa verde

Na revista Época da semana passada, o economista Ricardo Abramovay, especialista em sustentabilidade, afirma que o discurso catastrofista do clima já não surte mais efeito (leia aqui). E lembra que o apelo ambiental não conquistará adeptos caso pregue “vida simples e limites ao crescimento”. Concordo em parte com Abramovay. Acredito, como ele, que a proposta da sustentabilidade, por mais meritória que seja, é essencialmente impopular, porque representa um golpe no individualismo, alicerce da sociedade contemporânea. Trata-se, portanto, de uma causa complicada de “vender” pois diz respeito a restringir vontades pessoais imediatas e palpáveis em nome de benefícios coletivos futuros e difusos. Mas acredito também que a argumentação não possa se restringir apenas a mostrar que um mundo “descarbonizado” seria melhor que o atual, como ele sugere.

 

A meu ver, há necessidade de atuação em três frentes complementares, visto que todas elas são apenas parcialmente eficazes.

 

A primeira é, provavelmente, a mais desenvolvida de todas. Refere-se à inserção da sustentabilidade na lógica do sistema econômico atual, através de produtos orgânicos, ecologicamente certificados, socialmente responsáveis etc. É o chamado “consumo sustentável?. O alerta que se deve fazer a essa abordagem é que, à diferença de outras reivindicações, a sustentabilidade não pode simplesmente fazer parte do universo empresarial e midiático, tornando-se uma causa-produto tal qual um “Criança Esperança”. Isso contradiz sua própria essência, que é a da mudança do paradigma de desenvolvimento material vigente. Porém, sendo bastante pragmático, é melhor estimular o consumo sustentável do que o não-sustentável.

 

A segunda frente é política – entendida aqui tanto no sentido tradicional, de caráter partidário, quanto no sentido amplo, de negociação e busca de acordos entre atores sociais. Pressionar por mudanças legais e promover acordos entre representantes de agentes econômicos das principais cadeias produtivas em prol de práticas mais sustentáveis – expressas em leis, normas e até em códigos de autorregulação – são caminhos que podem ajudar a sociedade a formar noções mais claras do que venha a ser certo e errado no território da sustentabilidade. Leis e códigos funcionam como consensos aos quais as pessoas recorrem na hora de avaliar um fato. Quanto mais os defensores da sustentabilidade puderem influenciá-los e monitorá-los, melhor.

 

Finalmente, há uma terceira frente. Ela parte do princípio de que a sustentabilidade é uma reivindicação de fundo moral (e portanto, cultural), e não uma mera retórica mercadológica. Ela entende que recursos naturais e valores humanistas não podem ser dilapidados em nome de uma visão distorcida do que venha a ser “progresso”. Dessa forma, penso que cabe a seus seguidores a proposição de um modelo de vida concorrente ao materialista. Se há uma ideologia que afirma que o valor de uma pessoa se mede pela quantidade de bens que possui, há que se incentivar a construção de outra, que estimule o desenvolvimento de dimensões de prazer, satisfação pessoal e reconhecimento do indivíduo pelos seus pares que não apenas através da acumulação material.

 

Essa última pode não ser uma mensagem especialmente eficaz para as multidões récem-incorporadas ao terreno do consumo nas últimas décadas, mas pode soar suficientemente coerente e atrativa para os setores mais afluentes, formado por quem já se percebeu que os padrões atuais de desenvolvimento têm um custo no qual nem sempre vale a pena incorrer.

 
 

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