Chega de saudade

13/07/2015

Devemos sempre lamentar a morte de empresas tradicionais?

 

Parte da intelectualidade carioca está de luto. A cinquentenária livraria Leonardo da Vinci (foto), situada no centro do Rio, vai encerrar suas atividades. O motivo? Concorrência das megastores e da internet. Do ponto de vista afetivo, algo a lamentar, certamente. Mas...e sob o aspecto mercadológico?

 

Nem um pouco. Os mesmos que suspiram pelo fim da Leonardo da Vinci – e vociferam contra alvos imprecisos, como ‘as grandes corporações’, o ‘descaso do Poder Público’ e ‘o fim dos tempos na cultura’ – provavelmente são corresponsáveis pela sua derrocada. Afinal, a livraria tinha como ponto forte os títulos importados, especialização que a internet tornou obsoleta. Ou os intelectuais cariocas nunca encomendaram nada na Amazon? 

 

Além disso, aparentemente o negócio não soube se adaptar, fazendo as necessárias concessões em um mercado em mutação. Uma das proprietárias desabafou: “Estamos sendo punidos por nossas qualidades. Nossas virtudes tornaram-se defeitos. Não temos um café, não vendemos papelaria, nem informática. Vendemos pouca autoajuda e poucos best sellers. Temos um nicho, muito específico, que está sob pressão” (leia mais aqui). Tratar café, papelaria e best-sellers por “defeito” ou “qualidade” vai de cada um; adotá-los a fim de sobreviver, contudo, pode ser um sinal de bom senso empresarial.

 

Um outro livreiro do Rio, dono da conhecida rede Argumento, lamentou o fim da Leonardo da Vinci, mas fez uma aposta no renascimento das pequenas e médias livrarias de rua, amparadas em uma espécie de curadoria de proprietários literatos (leia aqui). Torço para que esse movimento de fato aconteça, mas, sinceramente, considero-o improvável. A curadoria de toda e qualquer compra, agora, virá da internet – seja do comentário de pares, seja de especialistas. Basta ver a quantidade de vídeos no You Tube com dicas de compra ou uso de produtos e serviços; basta ver a importância das resenhas de clientes em sites como a Amazon (e a relevância desses releases  para o próprio desenvolvimento de novos produtos, como menciono em “O caleidoscópio das marcas”, artigo publicado na última edição do Top of Mind de AMANHÃ).

 

Lamentar o fim de empresas tradicionais ou que “marcaram época” não é nenhum despropósito, evidentemente. Cidades e pessoas são feitas de referências sentimentais, e certas marcas e lojas fazem parte desse inventário afetivo. Isso não significa, no entanto, que a vida esteja piorando ou que valores civilizatórios estejam sob ataque. Significa, apenas, que as coisas se transformam, e que, no mundo dos negócios, sentimentos alimentam a memória e o espírito, mas não pagam contas – e estas nunca tardam a chegar.

 

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