Outros natais

06/01/2015

Do passado, do presente e, quem sabe, do futuro também 

Mais um Natal passou com sua comilança, seus presentes e, claro, com a condenação geral ao consumismo típico da época. A filósofa Marcia Tiburi foi uma das vozes nesse sentido, em crônica publicada no Correio do Povo, de Porto Alegre (e reproduzida aqui).

 

Curioso pensar que o texto de Tiburi, exceto, é claro, por menções à relativamente recente invasão chinesa das decorações e dos presentes, pudesse ter sido escrito um século atrás ou mais. O professor inglês Mark Connelly, em pesquisa histórica sobre a data, aponta que desde o início do século 20, pelo menos, o Natal já se apresentava uma festa de teor fortemente comercial, estimulando novas práticas tanto entre lojistas, como decorações esmeradas e muita publicidade, quanto consumidores (planejar-se para a temporada de compras e sair a olhar a decoração, por exemplo). 

 

Não tardou para que a Igreja começasse um processo de reação contra o pretenso esquecimento do significado histórico e religioso da data. Em 1951, em Dijon, na França, um boneco do Papai Noel chegou a ser queimado em frente à catedral da cidade, como lembra o antropólogo Ruben Oliven, na tentativa de fazer despertar a atenção da população para a subversão do espírito natalino. 

 

É provável que o comercialismo atual não seja maior do que no passado. Claro, o barateamento da produção de diversos itens, bem como o aumento do poder de compra de parte expressiva da população, ampliaram a euforia consumista típica da época. Mas o que mais distingue os tempos atuais é a desimportância da religião para a boa parte das pessoas. Com isso, do Natal resta apenas o sentimento de um ciclo que se encerra, trazendo uma mensagem sutil de solidariedade e congraçamento, imersa em um turbilhão de compromissos familiares e profissionais que incluem eventos e, claro, presentes.

 

Contudo, é possível que mesmo a obrigatoriedade do cumprimento dessas obrigações acabe perdendo o significado para alguns. Um arquiteto porto-alegrense me comentou que festeja o Natal com a esposa e os amigos, cantando e tocando violão. E que a troca de presentes é substituída por um curioso ritual: o do “elefante branco”. Cada participante escolhe um objeto pessoal do qual quer se ver livre – o tal “elefante branco” - e o entrega ao amigo secreto sorteado. Detalhe: como não há investimento de tempo, dedicação e dinheiro na escolha do objeto, uma vez que se trata de algo resgatado do precipício da lixeira do presenteador, os presenteados sentem-se livres para trocar entre si o que ganharam.

 

Se os Natais do passado compartilhavam religiosidade e troca de presentes, e o de hoje é eminentemente comercial, é possível que na sociedade do futuro, exaurida do materialismo, ele seja como o desse meu conhecido: uma grande brincadeira que não envolve compra nenhuma.

 

Ele, ao menos, garante que é divertidíssimo - e não há por que duvidar. 

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