A forma e o conteúdo

08/08/2014

Reflexões sobre as demissões no Grupo RBS e o futuro da mídia

Repercutiu fortemente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, na semana passada, as cerca de 130 demissões ocorridas no Grupo RBS. A medida foi anunciada em mensagem interna pelo presidente Eduardo Melzer na segunda-feira, e colocada em prática dois dias depois, causando certa comoção nos meios jornalístico e publicitário. “Duda”, como costuma ser chamado o CEO da RBS, foi acusado de insensibilidade e terrorismo por impor 48 horas de apreensão a 6 mil funcionários, e de desvirtuar os negócios da empresa, por apostar no comércio eletrônico e em empreendimentos menos afeitos ao setor de mídia.

 

O episódio – e o contexto em que ocorre – merece um comentário.

 

O mundo que fez da RBS um grande grupo empresarial está ruindo. As transformações da mídia nos últimos 10 ou 20 anos, basicamente em função da internet e de toda a indústria criada em seu entorno, provocaram uma ruptura que pôs em xeque a antiga ordem. Num primeiro momento, os veículos tradicionais tentaram se adaptar, levando seus conteúdos para o meio online. Mas a mudança de cenário foi tamanha que, mais recentemente, boa parte deles parece ter reconhecido que esta é uma batalha quase perdida: nenhum grupo de mídia tradicional será nesse novo cenário tão grande e poderoso quanto foi no anterior.

 

A Abril, por exemplo, fechou revistas deficitárias, passou a maioria de seus títulos para a Editora Caras, da qual é sócia minoritária, e optou por concentrar forças em suas marcas de maior potencial comercial, como Veja, Exame, Cláudia e Capricho. No mais, o grupo paulista vai, pouco a pouco, tornando-se um player de educação, ao controlar escolas de idiomas e sistemas de ensino por apostilas. A editora ficará no passado. 

 

Na Globo, as novelas e o Jornal Nacional, carros-chefe da programação, têm as piores audiências de sua história. Os jornalões perdem circulação (e, portanto, relevância jornalística e publicitária) ano após ano - tanto que cortes tão ou mais dramáticos que os efetuados pela RBS agora ocorreram no Valor Econômico, na Folha e no Estadão há cerca de um ano. As rádios permanecem como sempre foram: negócios pequenos, geralmente rentáveis, porém sem grandes perspectivas de decolagem, mesmo com a distribuição via web.

 

Lá fora, o Washington Post foi vendido. E o New York Times e o Wall Street Journal, dois bastiões da imprensa americana, lutam para se manter de pé.

 

Esse é o cenário que a RBS enfrenta. Compreensível, portanto, que o Grupo queira adequar sua estrutura operacional e de custos à uma dimensão definitivamente menor que a de outros tempos. O que não nos impede de lamentar pelas pessoas que perderam seus empregos e nos solidarizar a elas, evidentemente.

 

Ao ajuste das operações de mídia, como o que ocorreu na última semana, soma-se outra necessidade: apostar em novos negócios, nem sempre ligados à esfera da comunicação - como já indicava a aquisição, pelo Grupo, da HSM Management, empresa de educação corporativa, anos atrás.

 

Isso não invalida que o anúncio prévio das demissões, a pretexto de “acabar com os boatos”, tenha constituído, sim, um erro, uma falta de tato – bem como o fato de ter sido feito em meio a uma mensagem que mostrava entusiasmo com as novas empreitadas do Grupo em ramos alheios à mídia e tenha sido salpicada por clichês motivacionais, como “romper barreiras” e “quebrar paradigmas”. Melzer pode ter errado no tom, no timing, no jeito – na forma, enfim. Mas não me parece que esteja errado no conteúdo das medidas que toma. A RBS – assim como a Globo, a Folha, a Abril e todas as outras - é um transatlântico que precisa mudar de direção, e isso não ocorrerá sem traumas. Não por acaso Melzer usa a palavra “desapego” em dado momento da mensagem, para se referir a negócios e atividades “que não agregam”. Há que desapegar, sim.

 

E apostar num novo caminho. Se esse caminho é vender vinho e cerveja online, criar softwares de pesquisa sobre o consumidor ou transformar o RH em uma empresa separada, não sei. Sei que a história empresarial é pródiga em exemplos de gigantes abatidos por recusa à mudança e à adaptação mesmo quando diante de turning points evidentes, como o atual. 

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