Instituto Brasileiro de Opinião. Mesmo

07/05/2014

Pérolas dos analistas do IBOPE em pesquisas da década de 50 

A fronteira entre a análise técnica e o mero palpite ou especulação é tênue quando se trata de estudos de mercado. Ao mesmo tempo em que se cobra do consultor, pesquisador ou analista que faça valer sua experiência e sensibilidade na hora de avaliar um problema de negócios, repreende-se o “achismo” e a projeção de visões excessivamente particulares sobre o dado em análise.  

  

Por esse motivo, uma recomendação prudente aos profissionais que militam na área é ater-se aos dados e aos fatos, registrando em relatório apenas aquilo sobre o que se tem certeza, e deixar especulações, ilações e tudo mais para a reunião de discussão dos resultados com o cliente. Dessa forma, para a posteridade fica o registro daquilo que técnica e factualmente é defensável e comprovável, sem necessariamente abrir mão de colocar um tempero de opinião pessoal, criatividade e feeling, reservados ao bate-papo da apresentação do relatório. 

  

Essa não era, aparentemente, a orientação que os analistas do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) seguiam lá nos anos de 1950, quando já desenvolviam pesquisas acerca de hábitos de consumo, preferências ideológicas e eleitorais. Naquela época, o Instituto mais parecia voltado à “opinião pessoal” do que à “opinião pública” a qual se referem suas iniciais. Em relatório de 1952, por exemplo, um redator comenta os resultados de pesquisa sobre renda e orçamento doméstico realizada junto a consumidores de baixa renda. E se põe a fazer um arrazoado que envolve vocação para o trabalho, escolhas estéticas e administração de finanças pessoais dos seus pesquisados. O trecho é longo, mas vale a pena: 

  

“ [...] aquilo que aparece como miserabilidade talvez não seja mais do que vadiagem ou inadaptabilidade ao trabalho, ou, ainda, falta de critério na administração da economia. São os sapatos brancos de solas grossas, próprios para operarios e que só operarios usam, custando 600 a 800 cruzeiros, o dobro do preço de um calçado de bom gosto usado pela classe média [...] São os operários de Copacabana, que só viajam de lotação [...] São os relogios ‘folheado a ouro’, que se encontra preferentemente no pulso de operários [...] São as camisas de seda, que nenhuma pessoa de bom gosto se atreve mais a usar, porque constitui privilégio da classe operária. Nenhum regime democrático ou pseudodemocrático, nem mesmo o soviético elimina uma natural separação entre diversas categorias de trabalhadores ou classes, de acôrdo com o gráu de educação, cultura e nivel econômico. [...] O nivelamento é completo, e para baixo. Freqüentam cinemas, restaurantes, bôites, práias e hóteis de bom gosto, pessoas cujo nivel de educação e de vivência não as credencia para tal. O resultado é um constrangimento geral e um mal estar que se agrava de dia para dia” 

  

O Instituto não ficava aí. Em levantamento de 1953, ao identificar uma pretensa discrepância entre gastos pessoais e renda informados, seu parecerista especula que famílias de baixa renda aufiram receitas extras com práticas ilegais ou moralmente condenáveis: 

  

“A explicação mais aceitável é que mais famílias do que se supõe contam com o apôio de rendas subsidiárias, sejam elas provenientes de trabalho honesto ─ comissões de intermediários em pequenos negocios, biscates, “bicos” e trabalhos eventuais ─ sejam elas de classificação menos honesta (gravidade atenuada pela freqüência) ─ propina, suborno, concussão, jôgo do bicho, comissões indevidas 

em compras e fornecimentos, calotes, “facadas”, etc. ─ ou sejam elas, ainda, de fonte francamente desonesta ou imoral ─ furto roubo, esposa ou filha bonita que faz favores, casais de três membros, homossexualismo e outras brilhantes florescências características das grandes cidades”. 

  

Nesse mesmo relatório, sobra até para jornalistas e políticos “demagogos” que enxergam falta de recursos onde só existiria mau gerenciamento do orçamento doméstico: 

  

“[...] não há miserabilidade com o vulto e o volume que a demagogia de alguns jornais e emissoras de rádios e políticos pretendem [...] Não há por conseqüência, um problema de salários insuficientes, mas sim de mau aproveitamento dos salários ou melhor, má gestão da economia doméstica, por parte das donas de casa. [...] lembramos que a propalada pobreza brasileira, não é tão grande quanto 

parece, pois não se nota no público, em nenhum caso observado por nós, uma grande preocupação em economizar [...]”. 

  

Para além da curiosidade e do divertimento que provocam, a leitura dos pareceres do IBOPE cumpre dois propósitos. Primeiro, o de funcionar como testemunho acidental da evolução da prática do marketing e da pesquisa de mercado no Brasil nos últimos 60 anos. Tamanho grau de assanhamento retórico em um relatório de pesquisa, atualmente, seria impensável, ao menos nos institutos maiores e mais sérios, como o próprio IBOPE.  

  

Segundo, a de ensinar que, nessa atividade, o autopoliciamento é uma medida virtuosa e que deve ser exercida com frequência. Não existe neutralidade absoluta em um trabalho de análise de dados de pesquisa, nem isso seria desejável. Analisar implica trazer à tona características muito pessoais do profissional, como experiência, sensibilidade e background cultural, a fim de colocá-los a serviço da apreciação de um fenômeno. Isso tudo, no entanto, não o exime da autocrítica constante, a única ferramenta capaz de separar qualquer um desses valiosos recursos do mero preconceito e da sanha opiniática autoindulgente. 

     

Serviço: os trechos de relatórios do IBOPE reproduzidos acima foram extraídos da tese de doutorado de Silvia Martini, defendida na Unicamp em 2011. Ela pode ser acessada, na íntegra, aqui, mediante cadastramento. 

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