Quando a influência senta ao lado

Ambientes profissionais ajudam a formar “tribos”, tais quais aquelas dos adolescentes

Em reportagem sobre finanças pessoais, o Valor Econômico cita a influência que o ambiente de trabalho pode exercer nos padrões de consumo de alguém. “Se um colega de trabalho troca de carro regularmente, outros vão querer fazer o mesmo”, disse um especialista entrevistado pelo jornal (20/02/14).

O exemplo do automóvel soa meio exagerado, mas a ideia da influência dos pares no consumo faz todo o sentido. Um ensinamento importante que as ciências sociais trouxe para o universo do marketing é que o desejo de consumir nasce da interação social, e não de decisões individuais e solitárias, como imaginava a teoria econômica tradicional. Considerando que o ambiente profissional é um nos quais mais tempo se despende atualmente, não é de estranhar que acabem gerando “tribos” facilmente identificáveis por seus padrões de consumo.

No mercado financeiro americano, por exemplo, o BMW é o carro escolhido pelos novatos que fazem fortuna antes dos 30 anos, enquanto nas grandes corporações que cultivam menor formalidade no vestir, as camisas, calças e polos da Ralph Lauren são hits.

Na década de 1980, os jornalistas da Folha de S. Paulo caracterizavam-se por usar óculos de aro vermelho. No escritório de arquitetura MK 27, de São Paulo, vestir-se de preto dos pés à cabeça é uma espécie de “uniforme informal” dos profissionais.

Por quê?

Grupos exercem pressão por uma certa normatização de comportamentos e aparências. Adequar-se a ela é sinal de compromisso com a coesão interna e uma forma de tangibilizar o pertencimento para “os de fora”. Além disso, a ascensão profissional exige adequação ao meio e disposição de comungar de certos valores e escolhas que, ainda que meramente simbólicos, funcionam como indicadores de comprometimento com o coletivo.

Inevitável não constatar que, da infância e adolescência na qual infernizávamos nossos pais para ter o tênis ou a mochila do momento, não mudamos tanto assim. A não ser por um detalhe fundamental: na vida adulta, o dinheiro é nosso e sabemos bem quanto custa ganhá-lo, de modo que nossa decisão de ceder às pressões pela conformação estão sempre condicionadas à última linha do extrato bancário.