Aquilo que se vê

27/11/2012

Por que pessoas menos favorecidas vivem de empréstimo em empréstimo?

Um dos principais aprendizados que o Marketing pode (ou deveria) oferecer a seus estudiosos e praticantes é o de respeitar a diferença, sem cair na tentação de julgá-la. Se “cada um sabe a dor e a delícia de ser quem é”, como diria Caetano Veloso, cada um deve saber por que toma as suas próprias decisões de consumo no dia-a-dia – e nos falta justamente a capacidade de “vestir” a pele do outro para compreendê-las em toda a sua profundidade.
 
Falo isso porque sempre me insurjo contra os discursos que condenam o comportamento de compra dos mais pobres (“por que não poupam para adquirir à vista?” “por que querem a televisão mais moderna?”) e dos mais ricos (“por que não doam o dinheiro desse carrão para a caridade?”). Aqueles que se situam no meio da pirâmide social, como a maior parte de nós, simplesmente não sabem o que é uma restrição orçamentária pesada, e tampouco imaginam o que é poder gastar sem limites. 
 
Sobre o primeiro caso, o de compra dos mais pobres, saiu uma pesquisa que ajuda elucidar os motivos pelos quais muitos emendam empréstimos e financiamentos, sem nunca conseguir estabilizar suas finanças. Realizado por americanos, o estudo indica que “qualquer um, quando submetido a uma situação de escassez, pode ser levado a deslocar sua atenção para problemas mais imediatos e negligenciar questões de longo prazo”. Por isso, “enquanto nos concentramos em pagar a conta da mercearia de semana em semana, corremos o risco de negligenciar o aluguel do mês seguinte”, o que acabaria estimulando “as pessoas mais carentes a contrair empréstimos com juros altos” (Estadão, 02/11/2012).
 
Ou seja: a penúria material distorce a percepção temporal, tornando tudo o que é imediato mais importante. Eduardo Gianetti já falava nisso, mas sob outro enfoque, ao comentar que a incapacidade brasileira de se preparar para o futuro decorria de compreensões distorcidas do horizonte temporal, oriundas do imediatismo do colono português (um explorador sem intenção de fincar raízes), do escravo (sem perspectivas de liberdade) e do índio – para quem a noção de ontem-hoje-amanhã sequer existe.
 
Talvez a melhor forma de entender o comportamento dos menos aquinhoados seja compará-lo ao das empresas em crise. Sabe-se que companhias endividadas ou com prejuízos operacionais consecutivos perdem a capacidade de olharem para o futuro. E, na vida corporativa, achamos isso perfeitamente normal – quem encomendaria um planejamento de longo prazo se a qualquer momento um credor pode bater à porta e determinar que nada passará do curtíssimo prazo?
 
Pensando bem, sempre há como se colocar no lugar do outro. Basta achar a analogia correta.

 

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