Steve Jobs: admire com moderação

01/11/2011

Antes de se tornar o sucesso que é hoje, a Apple sofreu por teimosias de seu fundador

 

Em meio à enxurrada de edições especiais em homenagem a Steve Jobs, morto há quase um mês, resgato nos meus arquivos uma matéria de março de 2004, publicada no site da EXAME. Ela serve como um contraponto à uníssona ode steveana que tomou conta da imprensa desde o desaparecimento do fundador da Apple.
 
Chama-se “O paradoxo da Apple” e diz, entre outras coisas, o seguinte:
 
“(...) os produtos da Apple não são apenas pioneiros, mais fáceis de usar e mais elegantes que os de seus rivais. E no entanto, esses rivais seguiram as idéias criativas da Apple e abocanharam os lucros e a produção em massa que continuamente escapam às mãos da empresa. (...) Ao longo de sua existência, a Apple se dedicou obsessivamente, religosamente, à inovação. (Mas) nem toda inovação é boa”.
 
Por quê? Ora, porque não se pode
 
“(...) perseguir a inovação às expensas de outras virtudes para o sucesso duradouro. (...) Se o caso da Apple nos ensina alguma coisa, é que inovação eficiente significa mais do que criar coisas bonitas e bacanas. (...) (S)e o último lançamento da sua empresa não gera dinheiro, não é inovação, é arte”. 
 
Afinal, nos lembra a matéria, a inovação da Apple era do tipo técnica, focada no produto. Porém, 
 
“em virtualmente todas as indústrias, foram os inovadores em modelos negociais que colheram as maiores recompensas. E ocorre que a Apple é péssima em inovação no modelo gerencial”.
 
O autor da reportagem referia-se à teimosa insistência de Jobs e seus sucessores em não licenciar os softwares produzidos pela empresa para rodar em outras máquinas, restringindo-os aos caros computadores da empresa. E à tendência que a empresa sempre demonstrou, muito em função do temperamento de seu fundador, de tratar apego a caprichos bobos como sinônimo de excelência – muitas vezes, às custas de atrasos na conclusão de produtos e desgaste desnecessários na equipe de trabalho.
 
Desde a publicação daquela matéria, muita coisa mudou. À época, a Apple estava recém lançando a iTunes e, naquele ano, lançaria o iPod compatível com o onipresente Windows, o que fez deslanchar o tocador de música. Com o iPhone, a abertura para desenvolvimento de aplicativos voltados ao aparelho turbinou seu valor para o cliente, coisa parecida com o que ocorreu anos depois, com o iPad. Com essas medidas, Jobs evitava, em parte, incorrer nos mesmos erros que vitimaram a Apple nos anos 80 e 90, oferecendo não só um produto superior – mas uma proposta de valor atraente para o consumidor e um modelo de receita mais robusto para a própria companhia.
 
A despeito de todos os óbvios méritos de Steve Jobs, não serão os de homem de negócios que deverão eternizá-lo, a meu ver. Pelo contrário; o sucesso comercial da Apple é relativamente recente, não tem dez anos. De meados dos anos 80 até 2004, aproximadamente, a Apple era uma empresa de nicho, nada mais. As idiossincrasias de Jobs, instiladas na cultura corporativa, travaram uma companhia com potencial brilhante por quase duas décadas, condenando-a a representar uma ínfima fração do mercado de informática.
 
Por isso, a melhor definição que encontrei para o papel de Jobs como CEO foi dado pela mesma EXAME, em sua penúltima edição impressa: “a mágina de Steve Jobs foi transformar egomania, obsessão e inquietude em trunfo no mundo dos negócios”. Em outras palavras, o sucesso recente da Apple acabou por fazer de seus defeitos históricos supostas virtudes.
 
No entanto, creio que Jobs deixa algumas lições para os líderes empresariais – e falo sobre elas na semana que vem.  
 

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