A Nokia precisa se mudar para um casarão no Rio

16/08/2011

Nas artes e nos negócios, o ambiente é fundamental para quem depende da criatividade

Numa de suas colunas recentes na Folha de S. Paulo, Ruy Castro comentou a tendência de as novas gerações saírem da casa dos pais só depois dos 30 anos – quando não perto dos 40.Relembrou que, no seu tempo, tudo o que se queria quando jovem era “jogar-se à vida, longe da saia materna ou da mesada paterna”. E que um dos endereços nos quais morou durante a juventude, no Rio, era um casarão que reunia pessoas recém-saídas de casa em busca de “liberdade para criar, trabalhar ou não fazer nada”. Caso de Caetano Veloso, Paulinho da Viola e outros artistas que, nesse local, compuseram algumas de suas obras mais importantes. Com um certo desalento, Castro concluiu que “se aquela turma morasse com a mãe, nada disso teria acontecido”.

 

A crônica me chamou a atenção não tanto pela referência à “geração canguru” – aquela que fica sob os cuidados da mãe até a idade adulta –, e sim pela menção a um ambiente de efervescência criativa, o tal casarão carioca no qual Castro viveu. Para mim, mais do que um lamento, a frase final da crônica representa uma constatação de que a criatividade precisa de condições para emergir – e que o contato com outras pessoas é fundamental nesse processo. As potencialidades criadoras de alguém têm mais chance de aflorar quando estimuladas pelo ambiente, coisa que vale para a arte e, por que não?, para os negócios também.

 

Hoje, nenhum setor é tão dependente da criatividade quanto o da tecnologia. E o “casarão carioca” dessa indústria tem nome: Vale do Silício, na Califórnia. É lá que estão os nerds, geeks ou seja-lá-qual-for-o-nome que revolucionam o mundo digital de tempos em tempos. A concentração de muitos empreendimentos em uma mesma área geográfica favorece a aproximação de seus profissionais, permitindo a troca de informações, conhecimentos e experiências – estimulando a criatividade, enfim. A lógica de estar distante dos concorrentes para proteger segredos industriais não procede nesse caso; o bom mesmo é estar perto deles.

 

Lembrei então de um artigo publicado pela Business Week em setembro do ano passado que falava das dificuldades da Nokia em manter a liderança mundial do mercado de telefones celulares à medida que os usuários migram dos aparelhos comuns, nos quais a empresa finlandesa foi mestre, para os smartphones. A Nokia estaria perdendo o bonde da tecnologia ao inovar pouco em seus produtos, e agora se vê às voltas com a necessidade de recuperar terreno em um mercado dominado por Apple e RIM (Blackberry).

 

Ao especular sobre as razões para a decadência da fabricante finlandesa, o articulista apontava para o ambiente que circunda a companhia européia:

 

“(...) a Nokia não estava localizada perto de um centro de empresas semelhantes. (...) não estava rodeada de empresas de internet, nem de fabricantes de bens eletrônicos de consumo. Isso significa que não estava no meio de um ambiente de ideias inovadoras, o que a teria obrigado a questionar suas suposições - e ficar mais atenta - todos os dias.”

 

E, olhando pelo retrovisor, era taxativo quanto ao que poderia ter evitado as dificuldades atuais:

 

“A Nokia deveria ter se mudado para a Califórnia há dez anos. Teria provocado indignação na Finlândia e provavelmente também em Bruxelas (sede da União Européia). E teria valido a pena. A Nokia precisava ter se jogado no caldeirão da mudança tecnológica. Talvez dessa forma pudesse ter mantido a liderança, em vez de render-se a uma fabricante de computadores que parecia morta há dez anos (Apple).

 

Ou, para usar as palavras de Ruy Castro: a Nokia deveria ter saído da casa da mãe e se jogado na vida.
 

 

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