Eusei que vou gostar

22/02/2011

Nossos gostos e repulsas refletem nossas crenças sobre as coisas

 

Tempos atrás, em uma entrevista a O Estado de S. Paulo, o renomado chef Alex Atala deu uma declaração incomum e corajosa, dado o risco que corria de má interpretação. Disse Atala:

 

“Estou num momento da carreira em que, se eu fizer porcaria, as pessoas tomam como bom. O público é tão sem referência que fala do Alex Atala e compra tudo como bom. O leigo não comeu em grandes restaurantes, então tudo que está vindo é novidade. Poucas pessoas são capazes de falar: ‘não, Alex, isso aqui não está do jeito que devia’”. (14/08/2008)

 

Poucos profissionais de sucesso são sinceros a ponto de confessar que, mais do que merecer a fama e o reconhecimento que têm, podem desfrutar deles, recebendo avaliações condescendentes mesmo quando seu desempenho não é o melhor. Atala atribui tal privilégio ao despreparo do cliente médio de seus restaurantes, que não teve o paladar moldado nas melhores casas do mundo, e tem lá sua cota de razão. Tornamo-nos mais críticos e seletivos à medida que temos mais repertório, estejamos falando de gastronomia, arte ou idéias. Mas há um fator adicional desconsiderado por Atala, e que constitui uma curiosa descoberta recente da psicologia comportamental.

 

Nosso prazer não é apenas uma resposta sensorial aos sabores de um prato, às cores de um quadro ou à textura de um cashmere. Nosso prazer é uma resposta sensorial moldada por nossas crenças, de maneira que, não raro, achamos bom e bonito aquilo que previamente acreditamos será bom e bonito. Tanto quanto uma questão de paladar, apuro estético ou sensibilidade ao toque, nossas experiências são o resultado das pré-concepções que temos acerca do que ocorrerá em um restaurante, uma exposição ou uma compra. Daí a explicação de Atala ser apenas parcialmente correta.

 

Poucos são os profissionais e as marcas capazes de tamanho privilégio. Na gastronomia brasileira Atala certamente é um deles, do mesmo modo que Ferran Adrià e Alain Ducasse o são na espanhola e na francesa, respectivamente. Entre as marcas, Coca-Cola e McDonald’s são exemplos clássicos de influência do nome no prazer dos consumidores. Testes-cegos de sabor já foram desfavoráveis a ambas; a revelação de suas marcas, por sua vez, sempre lhes conduziu a resultados positivos nesses experimentos.

 

Convicções pré-estabelecidas que levamos conosco para as experiências não são necessariamente boas ou ruins. São, simplesmente, o nosso jeito de funcionar. Mas não deixa de ser inquietante a descoberta de que não existe uma “imparcialidade absoluta” nas nossas preferências e que, em tese, todo gosto e toda sensação, mesmo que triviais, são passíveis de construção e desconstrução.

 

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