Diga-me o que comes...

09/02/2011

...e eu te direi de que classe social és

A matéria de capa da revista norte-americana Newsweek de 29/11/2010 trouxe uma chamada interessante: "o que você come no jantar tornou-se a separação definitiva de status social".
 
Segundo a revista, "corpulência costumava significar prosperidade, mas agora tornou-se sinal de pobreza". Afinal, os pobres "comem o que podem: comidas produzidas em massa e altamente calóricas, como pizza e biscoitos, que os saciam rapidamente. Famílias de renda mais baixa escolhem comidas com alto teor de açúcar e industrializadas porque elas são mais baratas - e porque têm um sabor agradável". 
 
Moral da história: elementos aparentemente banais do consumo cotidiano são, sim, indicadores da diferença social. A alimentação é um deles, mas é possível encontrar padrões  de escolha no vestuário, no turismo e no mobiliário do lar também. 
 
Como padrão geral, observa-se que as classes menos favorecidas guiam suas escolhas pela maximização dos benefícios práticos que elas podem oferecer - a maior saciedade alimentar pelo menor custo, como no caso da comida -, e não tanto por critérios como prazer sensorial e curiosidade de experimentação. A razão é a limitação orçamentária. Tanto que qualquer aumento da renda funciona como uma pequena libertação em relação a esses critérios, permitindo ao consumidor enveredar por escolhas menos orientadas pela funcionalidade e mais pela gratificação pessoal. 
 
Por isso, àqueles que se dedicam a acompanhar o comportamento dos consumidores de baixa renda, fica o recado: os produtos e serviços atuais talvez não sejam adequados para atender a estes consumidores daqui a alguns anos, quando seu novo status social estiver consolidado. A tentativa de oferecer a melhor relação custo-benefício, vencedora nos últimos anos, poderá ter de ser substituída por uma proposta de valor mais elaborada, que contemple benefícios menos tangíveis. 
 
Uma forma de ir monitorando essas potenciais mudanças nos hábitos de compra está justamente no consumo cotidiano, flagrado por institutos como o IBGE. As ascensões de classe são acompanhadas por mutações na cesta de bens de maneira nem sempre radical, mas passível de ser identificada quando examinada em um horizonte mais amplo de tempo.

 

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© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

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