Os totens modernos

16/03/2010

Standards de reconhecimento são como deuses primitivos, mas acreditar neles é uma opção, não um destino

Leio que chefs de alto prestígio da França têm fechado seus restaurantes nos últimos anos por um motivo surpreendente: não agüentam mais a pressão e a tensão decorrentes das avaliações dos guias gastronômicos locais. Como se sabe, os guias de restaurante – e, em especial, o quase centenário Michelin – exercem grande influência sobre o prestígio e as finanças de um chef, e movimentam um verdadeiro mercado de vaidades no setor.

 

A leitura me lembrou de Bernard Loiseau, chef que tinha como obsessão as três estrelas do Michelin, a cotação máxima do guia. Desde quando iniciante na cozinha de um pequeno restaurante parisiense, mencionava-as como um mantra, tamanha a energia que depositava nesse objetivo. Seu talento e tenacidade foram recompensados após quase duas décadas, quando, finalmente, tornou-se um chefe de cozinha três estrelas. Mas sua fixação não se encerrava ali; manter-se no topo era tão ou mais difícil quanto nele chegar. Anos mais tarde, boatos de que seria rebaixado na classificação do Michelin o transtornaram e Loiseau pôs fim à própria vida com um tiro na cabeça.

 

Tal como a alta culinária francesa, toda profissão tem os seus standards de reconhecimento. Persegui-los com obstinação é, a um só tempo, estimulante e perigoso. Estimulante porque oferece um norte para a trajetória profissional. Perigoso porque pode representar uma espécie de terceirização da felicidade e da auto-estima.

 

Não chega a ser surpreendente. Povos primitivos cultuavam seus deuses, representados em totens. Hoje, mitos e totens foram modernizados sob a forma de Michelins, Nobels, Oscars, PhDs e cargos de CEO.

 

 Mas já houve quem se insurgisse contra isso. Em 1845, o pensador americano Henry Thoreau refugiou-se por dois anos em uma pequena cabana distante da cidade, e passou a viver do que plantava, caçava e pescava. Às atividades de subsistência, somou a solidão e a contemplação, das quais desfrutou com gosto. Voltou à “civilização” para narrar suas experiências em “Walden, A Vida nos Bosques”. No livro, Thoreau faz uma verdadeira exaltação à renúncia aos estressantes jogos de reconhecimento aos quais chefs franceses e tantos outros profissionais estão metidos em sua vida cotidiana, perguntando: “Por que devíamos correr desesperadamente atrás do sucesso, em empreendimentos desesperados?”.

 

Sistemas de classificação, premiações, hierarquias e remunerações são construções sociais voltadas a tentar organizar atividades e reconhecer méritos, sim. Mas para isso fazem da frágil natureza humana, sempre carente de aprovação externa, uma imprescindível matéria-prima.

 

Acreditar nos totens modernos é menos um destino que uma escolha, portanto. Loiseau devotou sua vida a um deles; Thoreau, mais de um século antes, decidiu ignorá-los.

 

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