Deixa a onda te levar?

23/02/2010

Grupos são perfeitos para disseminar comportamentos irracionais – inclusive nas compras e nos negócios

 

No filme alemão “A Onda”, baseado em fatos reais, um professor de ensino médio resolve fazer um interessante (e perigoso) experimento com seus alunos. A fim de mostrar como se criaram as condições que levaram a Alemanha a aderir ao nazismo, o mestre cria, entre os alunos, um movimento que eles apelidam de “a onda”. Do início aparentemente ingênuo para uma extrapolação do poder por parte de seus integrantes, é um pulo: ao final de uma semana de experiência, o professor perde o controle sobre seus estudantes e consegue mostrar, de maneira clara, mas totalmente involuntária, quão temerária é a irracionalidade das multidões.

 

Aderir a um grupo, seja ele qual for, é abdicar de pensar, muitas vezes. Como costuma escrever o psicanalista Contardo Calligaris, a adesão ao coletivo implica abrir mão da espinhosa tarefa de refletir em prol de uma bem mais confortável: a de concordar. Assim, criam-se as condições para comportamentos sem sentido, como depredar um estádio de futebol ou hostilizar uma colega que usa saia curta.

 

No mundo dos negócios e no do consumo, não é diferente. O que são as modas e os modismos senão que um efeito-manada, no qual se adere à última novidade simplesmente porque...é a última novidade, e os outros aderiram? No caso específico do vestuário, alguns padrões de roupas, sapatos e acessórios que se vêem por aí são de gosto tão duvidoso que não me surpreenderia que se descobrisse que seus adeptos, no fundo, não gostam do que vestem, calçam ou exibem – usam somente porque os outros usam, preferindo errar em grupo a acertar sozinhos.

 

Modas e modismos, aliás, existem não só no terreno do vestuário, mas das idéias e das práticas gerenciais também. Downsizing, reengenharia, qualidade total etc. etc. etc. Por mais meritórias que sejam algumas teorias de business, sua disseminação pode, sim, obedecer a padrões irracionais; um gestor adota simplesmente porque os outros estão adotando.

 

No mercado financeiro, as bolhas da internet e do mercado imobiliário mostraram claramente a influência da psicologia coletiva: a lógica econômica mostrava que aquele grau de valorização das empresas ou de risco assumido com as hipotecas não era razoável. No entanto, o ambiente favorável desestimulava alertas nesse sentido; afinal, grupos são sempre mais otimistas do que indivíduos. Só assim para explicar porque negócios aparentemente tão inconsistentes foram objeto de adoração por analistas tão sofisticados.

 

Antes de acompanhar o coro, seja ele dos contentes ou dos descontentes, vale parar para pensar, sozinho, se aquela música faz sentido – ou se aquela onda é a sua.
 

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© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

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