Interesseiro?! Eu?!

24/03/2009

Oferecer recompensas para atos que deveriam fazer parte da nossa obrigação moral soa ofensivo

 

Suponhamos que um hospital de Porto Alegre veja seus estoques de sangue minguarem pouco a pouco. Os pedidos de doação através da imprensa não surtem efeito e a situação parece insolúvel. Até que um gestor qualquer dá a idéia: “por que não oferecemos uma recompensa em dinheiro para as pessoas doarem sangue?”.

 

Brilhante idéia? Estoques cheios em pouco tempo? Não!

 

Ao menos é o que afirma Samuel Bowles na edição de março da Harvard Business Review. Segundo o autor, oferecer recompensas para atos que deveriam fazer parte da nossa obrigação moral soa ofensivo – e pode trazer efeitos contrários àqueles esperados. 

 

Ser altruísta ou cumprir regras não é fruto apenas de uma moral internalizada; é, também, um recurso do qual dispomos para “ficarmos bem na foto” com os outros e com nossa consciência. Todo mundo gosta de ser visto como ético e generoso, e nunca como mercenário e interesseiro. Por isso, incentivos materiais não estimulam a solidariedade ou o cumprimento de regras; devem ser usados, apenas, como pena potencial para sua não observação. 

 

Uma saída para o hipotético hospital com os estoques em baixa? Associar a doação de sangue à transferência de uma determinada quantia, por parte do hospital, para uma instituição filantrópica. Dois apelos num só: ao doar sangue, está-se fazendo um bem aos doentes e à entidade beneficente. Gesto mais enobrecedor, não existe.

 

E melhor ainda: o sangue pode ser do doador, mas o dinheiro é do hospital.
 

Share on Facebook
Please reload

© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.