Luxo no Sul: existe mercado?

07/12/2004

Satisfeitas com seus resultados no Brasil, algumas marcas de luxo já começam a examinar a possibilidade de abrir lojas em outras cidades fora do eixo Rio-São Paulo. De imediato, pensam em quatro capitais: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba e Porto Alegre.

 

Belo Horizonte e Brasília são lembranças óbvias: a primeira é capital do terceiro estado mais rico do Brasil, enquanto a segunda, a cidade com a maior renda per capita do país.

 

Já Curitiba e Porto Alegre sempre aparecem como os mercados mais atrativos fora do centro do país. Afinal, ambas cidades possuem níveis de renda e cultura acima da média do Brasil, devido à força de sua classe média. Lugares perfeitos para abrigar novas lojas de luxo, certo? Nem tanto.

 

Em primeiro lugar, convém lembrar que um bom nível de renda não quer dizer, necessariamente, potencial de consumo suficiente para justificar uma loja em determinada cidade. As regiões metropolitanas de Curitiba e Porto Alegre, somadas, apresentam um Índice de Potencial de Consumo (IPC) praticamente igual ao da cidade do Rio de Janeiro sozinha. Ou seja: é preciso juntar as duas capitais sulistas mais todos os municípios de seus arredores para se atingir o mesmo patamar de potencial de consumo que a capital fluminense possui sozinha. Isso sem contar que uma loja somente pode servir a todo o mercado carioca, enquanto que, no Sul, seriam necessários dois pontos-de-venda – o que, obviamente, se não quer dizer dobrar os custos, ao menos significa aumentar a complexidade operacional em nome de vendas que, somadas, muito provavelmente não se aproximariam daquelas obtidas pela loja carioca.

 

Há um outro aspecto relevante a ser considerado. “Nível cultural elevado” não significa, necessariamente, predisposição de compra elevada, ou mesmo desejo de consumir determinados produtos. Desejar produtos é um aprendizado; desejar o luxo, um aprendizado maior ainda. É necessário saber o que é luxo, quais suas principais marcas, porque são melhores e mais famosas que as marcas comuns, etc. E é preciso que o meio social em que circulam as pessoas valorize esse tipo de consumo.

 

Obviamente, informações dessa natureza circulam com muito mais velocidade em capitais cosmopolitas como São Paulo e Rio do que em cidades como Curitiba e Porto Alegre. Daí a razão do comentário de que os IPCs somados de Curitiba e Porto Alegre dificilmente seriam indicadores de vendas iguais às de uma loja no Rio, por exemplo: não se trata só de ter recursos para consumir, mas também de querer consumir.

 

Um consultor especialista em varejo comentou comigo, certa vez: “O consumidor do Sul não está preparado pra pagar R$ 3 mil por uma bolsa da Louis Vuitton”. Repare bem: ele nem citou que o consumidor talvez não disponha dos R$ 3 mil, e sim de que não está preparado – culturalmente, socialmente – para um dispêndio dessa ordem (que, aliás, com condições camaradas de parcelamento, não se torna um “peso” tão grande assim para o bolso médio).

 

Além disso, o consultor apontou um outro empecilho de ordem cultural que também impede que as marcas de luxo abram pontos-de-venda no Sul: a força das lojas multimarca, especialmente de vestuário. De fato, estes são modelos de operação bastante destacados nas duas capitais, sendo os principais responsáveis, inclusive, pela comercialização de algumas marcas de luxo nessas cidades.

 

Por isso, uma expansão mais forte do luxo para as duas grandes capitais do Sul do país ainda deve demorar um pouco. É necessário não só que existam melhores condições econômicas no país, como também uma mudança cultural do consumidor - para que, no futuro, ao bom nível de renda de Curitiba e Porto Alegre some-se, também, a vontade de consumir luxo.

 

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