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Tudo que vai

  • andredangelodomini
  • 15 de jul. de 2014
  • 4 min de leitura

Acha que desapegar daquilo que acumulamos ao longo da vida é fácil? Sabe de nada, inocente!


Anúncios servem para vender ou “construir marcas”, como gostam de dizer os publicitários, mas vez que outra se prestam também a fazer pensar. É o caso de uma recente campanha do Exército da Salvação, veiculada em mídia impressa no primeiro semestre desse ano. Com o mote “Desacumule”, as peças citam comportamentos tidos como normais – ter diversas peças de roupa no armário, mas só usar algumas – e os confrontam com outros, considerados absurdos, típicos dos chamados “acumuladores” (clique nas imagens ao lado para ampliar). A campanha tem por intenção precípua estimular doações, mas ao desafiar as fronteiras do comportamento considerado aceitável daquele tachado de “absurdo” cumpre o papel incomum de provocar a reflexão. Compartilho a minha a esse respeito:

1. Há uma corrente na sociologia do consumo que afirma que consideramos nossas coisas como partes de nós. Elas nos fornecem identidade e tangibilizam nossa história e existência. Por isso, desfazer-se de certos objetos pode ser uma experiência dolorosa emocionalmente, pois representa abrir mão de lembranças e sentimentos. Não raro a desacumulação pregada pelo Exército da Salvação ocorre em momentos de mudanças de papel social, em que o sujeito deixa um status para assumir outro (de solteiro para casado, de estudante para formado etc.). Nesses mesmos momentos é que tendem a ocorrer alterações na aparência, como cirurgias estéticas, tatuagens, cortes radicais de cabelo e trocas completas de guarda-roupa.

2. A situação descrita pelos anúncios está longe de constituir exagero para a maior parte de nós. Quem abrir um armário qualquer em casa saberá que guardamos bem mais do que se pode usar. Na Califórnia, pesquisadores visitaram três dezenas de casas da típica classe média de subúrbio dos EUA para concluir que, em 75% delas, as garagens não reservavam espaço para guardar um carro sequer, tamanha a quantidade de tralha acumulada. Como espaços físicos influenciam nosso estado de espírito (ou os refletem, quem sabe), o processo de descarte pode ser comparado a um exercício de higiene e alívio mental.

3. Um estímulo, sem dúvida, o que não necessariamente torna a tarefa mais fácil. Livros de auto-ajuda recomendam que, na hora de abrir mão de algo, o leitor “pense, agradecido, nas pessoas que estão ligadas aos objetos e, para cada uma delas, guarde uma peça de lembrança e dê o resto”. Será que funciona?

4. Suponho que muita gente, na intenção de aliviar a consciência, opte por doar ao invés de simplesmente jogar fora. Ótima ideia, qualquer um diria. Porém, a julgar pelo depoimento de quem faz triagem de doações em instituições de caridade, certas generosidades soam ofensivas. O mau estado de muitas peças de roupa que chegam a igrejas, centros comunitários e similares, por exemplo, provoca indignação nos responsáveis pela separação entre o que vai para as pessoas carentes daquilo que se destina diretamente à lata do lixo. “Pensam que pessoas pobres não merecem vestir-se com dignidade!” diriam alguns. Sou mais complacente. Creio que esse é apenas o reflexo da imensa dificuldade em descartar algo; imaginar que a vida útil do objeto continua longe dos seus domínios é apenas um jeito de ganhar coragem para mandá-lo embora.

5. Outra maneira de tornar a missão menos árdua é vender os objetos. Sites de comércio pessoa-a-pessoa estão aí para isso. A venda permite trocar o mal-estar do descarte pela saudável sensação de ganho após uma negociação bem-sucedida. Com isso, pode-se compreender porque certos profissionais são apaixonados pela área de vendas: o jogo expectativa-(não)realização pode ser mesmo viciante. Além disso, é um jeito de aprender um pouco mais sobre essa invenção social chamada mercado: aquilo que para nós pode constituir um entulho pode ter valor inestimável para outra pessoa (e vice-versa, claro).

6. Exceto nos casos notoriamente patológicos, vale ressaltar que a acumulação não é privilégio de reles mortais. O gabinete de trabalho de Freud era atrolhado de antiguidades, que ele fazia questão de carregar consigo quando mudava, temporariamente, para sua casa de férias (sujeitinho estranho, não?). Delfim Netto construiu ao longo da vida uma biblioteca com 300 mil volumes e ainda hoje compra de 40 a 50 livros por semana (sim, você não leu errado: por semana). Lúcido e bem de saúde, decidiu doar todo o seu acervo à USP, o que não o livrou de sentir um certo “abalo” à medida que as obras foram sendo transportadas para a universidade. Ainda que socialmente antiguidades e livros não sejam vistos como “tralhas”, o diagnóstico em ambos os casos pode não ser muito diferente daquele emitido para acumuladores: como bem desconfia o próprio Delfim, talvez ele seja, sim, compulsivo (leia mais aqui).

Para terminar: será que a propalada “economia do compartilhamento”, tão em voga na Europa e nos EUA, será capaz de mudar nossa relação com os objetos a ponto de a acumulação se tornar mais rara no futuro? Talvez, mas somos o único animal que acumula coisas, mesmo quando elas não têm utilidade prática (chimpanzés, por exemplo, podem usar um graveto para obter um alimento, mas o descartam assim que atingem seu objetivo). Caso reduzíssemos a posse de objetos ao mínimo, como obteríamos o sentimento de completude e identidade que eles oferecem?

Pois é, o que um bom anúncio não provoca de pensamentos...

 
 
 

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