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O que há de mais sagrado?

  • andredangelodomini
  • 30 de set. de 2014
  • 2 min de leitura

Quando o comercialismo captura tragédias, é de pensarmos: existe algo que não possa ser vendido?


Os americanos demoraram um bocado de tempo para definir o que construir na área em que estava instalado o World Trade Center, posto abaixo pelos atentados de 11 de setembro. Optaram por um projeto que, além de prédios comerciais, oferece espaço para um memorial em tributo àqueles que perderam a vida no fatídico dia. Um local no qual se encontram fotos das vítimas, relatos de moradores dos arredores das torres gêmeas, fotos e vídeos dos ataques e... uma sensasional gift shop no qual é possível adquirir souvenirs relacionados ao episódio, como camisetas, broches e bichos de pelúcia.

Se mesmo os americanos, que tiveram o orgulho e a sensibilidade atingidos pelo trauma, conseguiram transformá-lo em business, é de perguntar se existe algo nesse mundo capaz de escapar das tentações comercialistas.

Em tese, não. A sociedade de consumo é, de fato, uma sociedade que não impõe limites ao que possa ser consumido. Basta haver uma demanda que alguém tratará de providenciar a oferta. Consumir é a maneira pela qual nos habituamos a nos relacionar com o mundo e a desmistificá-lo. Mas a esse fator é necessário somar outro, de natureza mais psíquica.

Episódios trágicos, como o 11/09, despertam uma reação inicial de horror, choque e revolta que, com o passar do tempo, é trocada por outra, de assimilação, compreensão e alívio (por não ser uma das vítimas). Até como mecanismo de defesa, e para e tornar viável lidar com as dores e os temores decorrentes de um episódio de grande magnitude, lança-se mão do humor, capaz de deixar menos pesado o fardo de carregar uma memória desagradável para todo o sempre.

A meu ver, o comercialismo segue lógica parecida. À medida que nos afastamos temporalmente de um trauma coletivo, suas marcas vão ficando mais tênues. Vamos nos habilitando a lidar com ele de diversas formas – inclusive lucrando. Quando o fato não nos afeta diretamente, essa propensão é bastante mais acentuada, uma vez que as chagas permanentes quem carrega são os familiares dos que pereceram.

Se dependesse delas, é improvável que houvesse um gift shop no museu do onze de setembro. Até onde sei, memoriais de vítimas do holocausto, da ditadura militar argentina ou do vôo 3054 da TAM não contam com nada parecido. Porém, há uma diferença: estes foram criados por parentes de vítimas desses horrores, e não por terceiros que, por mais respeito nutram pelo sofrimento alheio, não o sentiram na mesma medida nem o carregam no peito para sempre.

Tem razão o pai de um rapaz morto no nine-eleven quando diz que a lojinha do memorial “é comercialismo grosseiro em um lugar literalmente sagrado”. Ao contrário do que acreditam alguns, levar memorabilia para a casa não é uma recordação eterna do pavor que se abateu sobre os Estados Unidos e o mundo naquela terça-feira; é só um jeito diferente de esquecer.

 
 
 

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© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

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